terça-feira, 12 de abril de 2016

Moral e Moralismo









Me parece que os “cristãos” andam confundindo as coisas entre moral e moralismo. Moral vem do latim “mos” que quer dizer costumes e é uma tentativa, apenas, de tradução do termo grego “ethos” que se tonou ética. Mas tanto “ethos”, quanto ética, tem a ver com caráter e nada tem a ver com o costume, pois alguns costumes não tem muito ético nisso. Então, quando se diz que uma menina de shortinho curto dançando funk é imoral (o sufixo “i” dá um tom de negação no termo), estamos dizendo que os bons costumes não abrangem esse tipo de coisa, mas por outro lado, os bons costumes também dizem que numa briga se tem que ouvir os dois lados da história e não gritar com as pessoas sem motivo nenhum. Não é isso que vimos na nossa sociedade, que ao invés do diálogo, ficam brigando e gritando. Isso não é imoral? Se a moralidade abrange esse tipo de coisa, então, ninguém sequer leu o Sermão da Montanha que Jesus diz que bem-aventurado os mansos, pois deles é o reino dos céus e o que adianta tirar a trava do olho do próximo, se não tira nem a que está no seu próprio olho.

Já moralismo nada tem a ver com Cristo, aliás, a moral espiritual nada tem a ver com a moral humana, tem a ver nas profundezas mais essenciais dos ensinamentos do Mestre. Moralismo é algo imposto, algo que tem que acontecer de qualquer jeito até as pessoas seguirem o que a outra acha certo, pois aquilo é ensinado como abominação. Abominar vem do latim “abominare” e quer dizer aborrecer, ou seja, as pessoas que não seguem sua ordem espiritual lhe aborrecem e sempre se tornam pessoas moralistas impondo costumes que não estão nem nos ensinamentos de Cristo, nem em nenhum livro dos evangelistas e sim, dos pais da igreja. Pedro não foi papa, Paulo não foi pastor, os dois foram evangelistas e eram humanos assim, como os pais da igreja, eram aptos a errar e erraram em impor nas comunidades cristãs algumas coisas que nada tinham a ver com o que Cristo ensinou. Na verdade, Nietzsche não errou, o evangelho morreu na cruz. Será que é certo pregar a paz e ir à igreja só para pedir e não fazer por merecer? Será que pedir e não fazer?

Ora, essas comunidades cristãs que chamamos de igrejas (que vem do grego “ekklesias” que quer dizer assembleia), são tão populosas não por causa do chamado espiritual, mas aquilo que podem conseguir. Sempre foram igrejas que prometeram algo as pessoas e as pessoas não vão nessas igrejas para encontrar Deus, mas vão para sanar seus problemas, sanar suas dificuldades e isso não é certo, pois estão adorando o que eles chamam de “bezerro de ouro” que faz alusão a cena no qual Moisés desce a montanha e encontra adorando um bezerro de ouro. Ele fica furioso e mata 300 dos hebreus, que por termos lógicos, já desobedeceu ao mandamento de não mataras. Ora, se não podemos adorar imagens por causa dessa passagem, então, por que as pessoas adoram um objeto como a bíblia? A bíblia, que como todo livro sagrado, é um conjunto de livros de determinada religião, mas não quer dizer que é a “verdade”, e sim, ensinamentos que levarão a “verdade”. Mesmo assim, a verdade (realidade) não pode ser absoluta porque toda a “verdade” é relativa e se ela é relativa a verdade tem a ver com o modo subjetivo de olhar o mundo. Para alguns a verdade está na ciência, porque explica de maneira empírica (no modo da experiência) toda a nossa realidade, para outros, a verdade está na religião que tem a ver com a visão que o ser humano é guiado por uma força superior ou um ser (deuses ou Deus), e que o ser humano não terá culpa das suas decisões. Então, nesse pensamento binário chegamos ao impasse, pois não existem hipóteses cientificas conclusivas e nem religiões com um só ensinamento e sim, muitas religiões que nos dão muitos caminhos.

Criamos, assim, um impasse dentro da moral que não avaliamos graças ao nosso pensamento binário. Primeiro, quem acredita que o cristianismo ou outras religiões não trouxeram nada de bom e apenas conflitos – que a antiga URSS também tinha e não se tolerava a religião em si – esquecem que nossa moral dentro da ética, fazem os cientistas terem condutas razoavelmente, dentro do limite ético. Por exemplo, não temos cientistas fazendo experiências genéticas em humanos (não que saibamos), não temos cientistas que modificam a genética de tudo ao seu bel prazer, mas há um limite nessas modificações (conhecidos transgênicos), que há uma certa moral e veio do limite ético de modificação da biodiversidade. Isso veio com os tratados e pensamentos de pensadores cristãos, porque se fossemos regidos pelo modo ético romano, por exemplo, um pai (o direito “pather”) poderia matar seu filho se esse não tivesse as características que ele não concordasse. Ou, um governante poderia conquistar o território do outro se esse outro tiver mais coisas do que ele, por exemplo, pelo pensamento clássico. Outro pensamento clássico vindo da antiga Grécia é que eu sou grego e sou humano, se eu não for grego, não serei considerado um humano, que o cristianismo em essência (sem ser o cristianismo católico e muito menos, protestante), diz que todos são filhos do mesmo “pai”. Porém se levarmos só diante da religião, não vamos ter mulheres menstruadas em uma igreja e nem trabalhando, pois são impuras e não podem conviver com os outros. Se houver uma briga, se o outro for o religioso esse pode matar seu adversário que Deus irá perdoa-lo. Pessoas com deficiência e quem tiver defeito físico (incluindo míopes, mancos, doentes, velhos, com espinhas, etc) não poderão entrar em uma igreja, não poderão ser considerados nem, filhos em essência de Deus.

Talvez, essa confusão se deu dentro de algumas realidades (que pensamos ser verdades) que achamos cruciais para sermos ótimos cristãos, mas não seremos se esse tipo de verdade não sai do nosso conceito. Porque para ler a bíblia, temos que tirar toda a carga conceitual de nós, até mesmo, que a bíblia é a verdade, pois a verdade muda conforme nosso entendimento. Depois temos que aceitar de todo coração o mesmo Cristo que fez Jesus enxergar a realidade verdadeira, que ainda por sermos ignorantes dessa realidade, não podemos entender ainda. Na verdade, a verdade é a nossa libertação e esse é o caminho estreito que Cristo (quando Jesus foi batizado por João Batista, se transforma em Cristo que vem do grego “kristói” que é “ungido”) disse e que deu esse ensinamento a Pôncio Pilatos, pois cada um deve enxergar essa verdade conforma seu entendimento.

Então, não vamos confundir moralismo com moral, pois os moralismos impõem o entendimento humano, impõem regras que nada tem a ver com as verdadeiras regras do cristianismo.


Amauri Nolasco Sanches Jr, 40, escritor e filósofo. 


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