Me parece que os “cristãos” andam confundindo as coisas
entre moral e moralismo. Moral vem do latim “mos” que quer dizer costumes e é
uma tentativa, apenas, de tradução do termo grego “ethos” que se tonou ética. Mas
tanto “ethos”, quanto ética, tem a ver com caráter e nada tem a ver com o
costume, pois alguns costumes não tem muito ético nisso. Então, quando se diz
que uma menina de shortinho curto dançando funk é imoral (o sufixo “i” dá um
tom de negação no termo), estamos dizendo que os bons costumes não abrangem
esse tipo de coisa, mas por outro lado, os bons costumes também dizem que numa
briga se tem que ouvir os dois lados da história e não gritar com as pessoas
sem motivo nenhum. Não é isso que vimos na nossa sociedade, que ao invés do diálogo,
ficam brigando e gritando. Isso não é imoral? Se a moralidade abrange esse tipo
de coisa, então, ninguém sequer leu o Sermão da Montanha que Jesus diz que bem-aventurado
os mansos, pois deles é o reino dos céus e o que adianta tirar a trava do olho
do próximo, se não tira nem a que está no seu próprio olho.
Já moralismo nada tem a ver com Cristo, aliás, a moral
espiritual nada tem a ver com a moral humana, tem a ver nas profundezas mais
essenciais dos ensinamentos do Mestre. Moralismo é algo imposto, algo que tem
que acontecer de qualquer jeito até as pessoas seguirem o que a outra acha
certo, pois aquilo é ensinado como abominação. Abominar vem do latim “abominare”
e quer dizer aborrecer, ou seja, as pessoas que não seguem sua ordem espiritual
lhe aborrecem e sempre se tornam pessoas moralistas impondo costumes que não estão
nem nos ensinamentos de Cristo, nem em nenhum livro dos evangelistas e sim, dos
pais da igreja. Pedro não foi papa, Paulo não foi pastor, os dois foram
evangelistas e eram humanos assim, como os pais da igreja, eram aptos a errar e
erraram em impor nas comunidades cristãs algumas coisas que nada tinham a ver
com o que Cristo ensinou. Na verdade, Nietzsche não errou, o evangelho morreu
na cruz. Será que é certo pregar a paz e ir à igreja só para pedir e não fazer
por merecer? Será que pedir e não fazer?
Ora, essas comunidades cristãs que chamamos de igrejas (que
vem do grego “ekklesias” que quer dizer assembleia), são tão populosas não por
causa do chamado espiritual, mas aquilo que podem conseguir. Sempre foram
igrejas que prometeram algo as pessoas e as pessoas não vão nessas igrejas para
encontrar Deus, mas vão para sanar seus problemas, sanar suas dificuldades e
isso não é certo, pois estão adorando o que eles chamam de “bezerro de ouro”
que faz alusão a cena no qual Moisés desce a montanha e encontra adorando um
bezerro de ouro. Ele fica furioso e mata 300 dos hebreus, que por termos lógicos,
já desobedeceu ao mandamento de não mataras. Ora, se não podemos adorar imagens
por causa dessa passagem, então, por que as pessoas adoram um objeto como a bíblia?
A bíblia, que como todo livro sagrado, é um conjunto de livros de determinada religião,
mas não quer dizer que é a “verdade”, e sim, ensinamentos que levarão a “verdade”.
Mesmo assim, a verdade (realidade) não pode ser absoluta porque toda a “verdade”
é relativa e se ela é relativa a verdade tem a ver com o modo subjetivo de
olhar o mundo. Para alguns a verdade está na ciência, porque explica de maneira
empírica (no modo da experiência) toda a nossa realidade, para outros, a
verdade está na religião que tem a ver com a visão que o ser humano é guiado
por uma força superior ou um ser (deuses ou Deus), e que o ser humano não terá culpa
das suas decisões. Então, nesse pensamento binário chegamos ao impasse, pois não
existem hipóteses cientificas conclusivas e nem religiões com um só ensinamento
e sim, muitas religiões que nos dão muitos caminhos.
Criamos, assim, um impasse dentro da moral que não avaliamos
graças ao nosso pensamento binário. Primeiro, quem acredita que o cristianismo
ou outras religiões não trouxeram nada de bom e apenas conflitos – que a antiga
URSS também tinha e não se tolerava a religião em si – esquecem que nossa moral
dentro da ética, fazem os cientistas terem condutas razoavelmente, dentro do
limite ético. Por exemplo, não temos cientistas fazendo experiências genéticas em
humanos (não que saibamos), não temos cientistas que modificam a genética de
tudo ao seu bel prazer, mas há um limite nessas modificações (conhecidos transgênicos),
que há uma certa moral e veio do limite ético de modificação da biodiversidade.
Isso veio com os tratados e pensamentos de pensadores cristãos, porque se
fossemos regidos pelo modo ético romano, por exemplo, um pai (o direito “pather”)
poderia matar seu filho se esse não tivesse as características que ele não concordasse.
Ou, um governante poderia conquistar o território do outro se esse outro tiver
mais coisas do que ele, por exemplo, pelo pensamento clássico. Outro pensamento
clássico vindo da antiga Grécia é que eu sou grego e sou humano, se eu não for
grego, não serei considerado um humano, que o cristianismo em essência (sem ser
o cristianismo católico e muito menos, protestante), diz que todos são filhos
do mesmo “pai”. Porém se levarmos só diante da religião, não vamos ter mulheres
menstruadas em uma igreja e nem trabalhando, pois são impuras e não podem conviver
com os outros. Se houver uma briga, se o outro for o religioso esse pode matar
seu adversário que Deus irá perdoa-lo. Pessoas com deficiência e quem tiver
defeito físico (incluindo míopes, mancos, doentes, velhos, com espinhas, etc) não
poderão entrar em uma igreja, não poderão ser considerados nem, filhos em essência
de Deus.
Talvez, essa confusão se deu dentro de algumas realidades
(que pensamos ser verdades) que achamos cruciais para sermos ótimos cristãos,
mas não seremos se esse tipo de verdade não sai do nosso conceito. Porque para
ler a bíblia, temos que tirar toda a carga conceitual de nós, até mesmo, que a bíblia
é a verdade, pois a verdade muda conforme nosso entendimento. Depois temos que
aceitar de todo coração o mesmo Cristo que fez Jesus enxergar a realidade
verdadeira, que ainda por sermos ignorantes dessa realidade, não podemos
entender ainda. Na verdade, a verdade é a nossa libertação e esse é o caminho
estreito que Cristo (quando Jesus foi batizado por João Batista, se transforma
em Cristo que vem do grego “kristói” que é “ungido”) disse e que deu esse
ensinamento a Pôncio Pilatos, pois cada um deve enxergar essa verdade conforma
seu entendimento.
Então, não vamos confundir moralismo com moral, pois os
moralismos impõem o entendimento humano, impõem regras que nada tem a ver com
as verdadeiras regras do cristianismo.
Amauri Nolasco Sanches Jr, 40, escritor e filósofo.
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