quinta-feira, 3 de março de 2016

Filosofia e espiritismo




Muitas pessoas que dizem acreditar e seguir o espiritismo – doutrina criada a partir dos escritos de Allan Kardec – não gostam de ler livros de filosofia e muito menos científicos, isso é até contra os princípios do espiritismo. Claro que existem coisas que poderiam ser evitadas dentro da doutrina e não são, não entenderam que a doutrina é filosófica cientifica, não entenderam que não tem bases nenhuma religiosa e não entenderam se somos espíritos, somos a essência do divino sem precisar ter uma religação. O problema nisso tudo é muito mais cultural do que propriamente, religioso, pois temos nossa raiz cultural cristã católica muito bem enraizada ao ponto de submeter outras doutrinas aos seus ensinamentos. Não existe base mais religiosa do que atribuir ao espiritismo, a terceira revelação de Fatima ou que o espiritismo é o espirito da verdade de Jesus assim sendo, num modo bem cético, a doutrina se desviou do seu real objetivo que era dar ao ser humano o conhecimento filosófico e cientifico para o progresso moral. Falhou em colocar coisas que não passam de religiosidade, formas de adoração de espíritos e médiuns e mais do que isto, começou a adotar posturas que não caberia na doutrina.

Vamos ver que filosofia vem do grego “philosophia" que tem o termo “philia” (que quer dizer amizade) e outro termo “sophia” (que quer dizer sabedoria). Talvez, quando Pitágoras forjou o termo “philosophós”, ele tenha querido dizer que era um amigo da sabedoria que mesmo ela estando perto dele, ele ainda estivesse procurando um meio para ela estar com ele eternamente, uma sabedoria que elevasse ele aos deuses (já que na época, se acreditava nos deuses). Mas o grego clássico tinha uma ideia muito mais restrita do amigo ou da amizade, pois era uma relação de extrema intimidade, tanto é, que o filósofo Aristóteles vai dizer que um amigo é um outro eu. A sabedoria (sophia), acaba sendo um outro “eu” dentro do que o grego clássico tinha como amizade, seria o que algumas alas da psicanalise diz, como “álter ego” (o outro eu). Isso quer dizer que podemos questionar algumas posições dentro da cultura e dentro das religiões vigente e até mesmo, dentro do espiritismo.

Podemos dizer que a filosofia é nós acordarmos do nosso sono dogmático e cultural que somos submetidos, como na caverna de Platão (que dizem ter respondido algumas perguntas no Livro dos Espíritos), quanto do filme Matrix. O começo da tomada de consciência é questionar, é perguntar se aquilo é ou não verdade e antes de tudo, adquirir conhecimento. Esse é o verdadeiro espirito da verdade, o conhecimento e com esse conhecimento, vamos subindo a escada da evolução transcendental. Todo filósofo começa com a pergunta, “será quê…?”, que dará ao indagador o motivo de ir muito mais além do que nos é passado. Será que realmente os seres vivos vieram da agua? Será mesmo que Sócrates existiu? Será que existiram civilizações como a atlante? São essas formas que levam ao filósofo começa a sair da prisão do critério conceitual da moral humana e descobrir um novo caminho. Lembramos que Jesus disse que o caminho da perdição é largo, que o verdadeiro caminho é difícil e estreito. Sócrates, Buda, Platão e todos esses famosos espíritos do conhecimento, disseram o mesmo e que coloca em xeque muitas doutrinas dessas religiões ditas cristãs. Por que Elohim Jeová não queria que o conhecimento fosse dado ao homem? Ou Prometeu foi castigado por dar ao ser humano o fogo do conhecimento? Por que tanto os deuses gregos, deuses nórdicos, o deus Elohim Jeová, eram tão cruéis? São perguntas que um filósofo poderia perguntar, porém, hoje muitos poucos estudiosos espiritas fazem essa indagação.

Há erros muito grandes quando querem explicar aonde vem termos filosóficos que na maioria das vezes, os espiritas mais religiosos usam sem saber sua origem. O pensamento “ação e reação” remontam eras muito mais distante do que Descartes e não pode ser confundido com o pensamento cartesiano, pois esse pensamento existe e existiu em todas as religiões do mundo. Podemos remontar esse pensamento como um pensamento hermético de Hermes Trismegisto que assim dizem, era um sacerdote egípcio ou vários sacerdotes. Claro que esse pensamento é muito mais antigo (não quero no momento, entrar no mérito de Atlântida), mas no que conseguimos identificar por hora, chega até O Cabalion (tem em pdf). A ação (ou em sânscrito, língua hindu-ariana “karma”), sempre resulta em uma reação (ou em sânscrito “dharma”) em tudo que fazemos, pois, toda a ação que potencializamos com nossa vontade se agir, resultara em uma reação da escolha da ação feita. Se agredimos um outro individuo, a reação pode ser revidada com outra agressão ou a morte de quem você agrediu. Se você agrediu e feriu o outro, o resultado vai ser a ira e outra agressão, se você matou, você privou o outro de viver e aprender (criando um vácuo dentro do espaço-tempo da existência do outro), assim criado o “karma” e assim, modificando o “dharma”.

A questão da ação (karma) e reação (dharma) são ensinamentos antigos que podem ter sido descobertos muito milênio atrás. Parece obvio, mas o ser humano não entendeu muito bem isso, e talvez, o mito do paraíso seja a descoberta do que não poderia fazer. Ou a descoberta dos primeiros humanos das possíveis armas não resultaram e uma ação errada? Quantas vidas foram privadas das inúmeras guerras que foram feitas dentro da humanidade? Isso não vai gerar uma reação dentro da ação correspondente? Isso o budismo ensina, pois se temos raiva as nossas ações vão ser o resultado da nossa raiva, se temos compaixão vamos ter o resultado a compaixão e se você ter amor, com todos os sentimentos nobres, o resultado vai ser os sentimentos nobres. Na própria bíblia, Jesus disse que tudo que ligarmos na Terra será ligado no céu e tudo que desligar na Terra será desligado no céu, porque o céu é o mundo estéreo. Isso é uma questão moral, dês do primeiro humano que descobriu a machadinha e matou o primeiro humano, gerou o primeiro vácuo espaço-tempo do nosso mundo tirando o direito do outro de continuar sua existência, gerando um “dharma” dentro do seu “karma”. Não é só uma reação física e sim, uma reação energética, porque foi quebrada um círculo da existência do outro e assim, se cria uma ação para substituir o espaço que foi aberto com o ato em si. Outro exemplo é o estupro, mesmo sem matar, você liberou um sofrimento que a vítima exalou dentro do espaço-tempo, esse sofrimento alterou o estado psíquico-corporal ao ponto de mudar o seu estado do espirito. O ódio pode ficar – depende do grau de aprendizagem do espirito da vítima – e daí começa a ação de reverter isso, pois o estuprador fica com a energia da vítima. Na verdade, no ato sexual, é trocada energias fluídicas entre o par.

Tudo isso que escrevi é fruto de pesquisas, estudos e livros espiritas e não espiritas, mas que o espiritismo não deveria fechar os olhos para tais estudos. Outra coisa que pesquisei é a história da reencarnação, que assim as fontes dizem, Kardec demorou bastante para aceitar. Há um erro bastante significativo em atribuir a reencarnação espirita com a reencarnação budista, pois a reencarnação budista é a migração da alma de um corpo para o outro, ou seja, para o budismo não é uma reencarnação e sim, um renascimento. A reencarnação evolutiva da alma é druídica e vem com a cultura céltica que, talvez por reminiscências daqueles que estruturaram o espiritismo, sendo que na época, não teriam tantos estudos sobre a religião druida. Os druidas acreditavam no mesmo progresso espiritual do que os espiritas acreditam, o budismo acredita apenas na roda de samsara que só é quebrada com o despertar da meditação (não foge do progresso, mas o processo é outro), mas não em reencarnar num modo progressista, mas num modo de cada vida ser uma continuação até o despertar (uma súbita iluminação). No druidismo há como no espiritismo, progressos de cada processo até o cume da harmonia, que explica mais ou menos, como é o progresso biológico.

Sim, o que evolui não e só o corpo, mas o espirito. Vamos fazer o seguinte exercício mental (igual Einstein fazia com suas teorias na física), imaginamos todo processo evolutivo até chegar ao homem e enxergar que o ser humano é o cume da consciência, independente dos erros, mas que construiu tecnologia para mudar o ambiente conforme a sua necessidade. Imaginamos se o homem ao invés de um corpo de primata – porque somos um tipo de símio-primata – tivéssemos evoluído num corpo de um réptil. Não seriamos diferentes? E se a atmosfera fosse não oxigênio, mas metano, por exemplo? O que muitos não sabem, ou fazem de conta não saber, é que quando não há possibilidade de via é porque se esgotou possibilidades, pois a natureza não desperdiça nada.  Por isso não interpreto o Gêneses bíblico como algo cientifico e sim, como algo moral. Será que esse “haja luz” não é uma referência daquilo que chamamos de consciência? Será que isso não é um ato de consciência dos primeiros seres vivos conscientes? Há ainda muitos mistérios que podem ser desvendados ou não, resta saber que esses mesmos mistérios não podem ser desvendados com textos e estudos mais ou menos, rasos sem nenhuma profundidade. Só ler romances, só ler frases, só ler textos esporádicos, não vai fazer entender a doutrina.

Para terminar não poderíamos ficar sem analisar toda da obra de Platão, se você é espirita e não leu os diálogos platônicos está com uma grande lacuna doutrinaria. Sem entender a base de sua filosofia, não entenderemos o que é evoluir espiritualmente e se você não quer dar o trabalho de ler os livros, pode assistir vários filmes e um deles é Matrix. O teorema da caverna diz que haviam seres humanos que viviam no escuro, que viam sombras feitas por uma fogueira atrás desses seres humanos. Pensavam que essas sombras eram realidades que apareciam numa parede – no tempo em que Platão viveu, não tinha a tecnologia dos slides e dos hologramas e erroneamente, se atribui a TV nessa teoria -  e que pensavam que aquilo era a realidade. Estava tudo bem, os sujeitos que viam aquela realidade eram sujeitos que eram facilmente controlados, até que um desses sujeitos se soltam das correntes que prendiam aqueles humanos dês do seu tenro nascimento. Ele foi até a entrada da caverna e quando estava na entrada da caverna, viu o dia e se cegou com a luz forte do sol e quando se acostumou dessa luz, viu uma outra realidade e essa realidade o encantou e quis falar para todos essa realidade e o chamaram de mentiroso e riram da sua cara. Mas ele insistiu e foi morto por aquele que quis trazer a ele a realidade. Alguns dizem que esse teorema platônico é para explicar sua teoria do mundo sensível (aquilo que vimos e temos como realidade) e o mundo inteligível (ou o mundo das ideias), onde há uma realidade muito além do que vimos ou sentimos.

Ao meu ver, o teorema da caverna em sua maior essência está muito além do que a mera explicação que ele fala do mundo das ideias (que ainda está muito além da explicação do mundo espiritual), ou que é uma outra explicação da morte do seu mestre Sócrates. Claro que faz sentido que o teorema faz uma referência ao filósofo, pois dentro da filosofia que começando a indagar a realidade que nos rodeia. Por que tenho que votar em tal candidato? Por que tenho que acreditar que o homem realmente, pisou na lua em 69? Por que devo escutar tais músicas ou tais radio populares? Por que deve seguir tais rituais religiosos ou acreditar que alguns sujeitos que dizem que tais religiões não prestam? Quais os interesses desse sujeito? Por que devo comprar um livro que todo mundo compra ou por que devo gostar de tal autor? Parece perguntas bobas, mas é o começo de uma ascensão espiritual e até duvidar de muita coisa da doutrina e até mesmo de Kardec.  Por que não? Por que não podemos duvidar dos romances e dos livros espiritas de agora? A dúvida pode ser a única coisa que podemos colocar em analise muitas coisas e isso só é feito filosofando, criando maneiras de criar vias alternativas dentro do que se chamou de realidade.

Amauri Nolasco Sanches Jr, 39, escritor.