Todos que discuto filosofia me perguntam: qual sua filosofia? Me faz imaginar que as pessoas imaginam que a filosofia seja como escolher um time de futebol, que essa pergunta seria a mesma pergunta que o senso comum sempre faz: “Que time você torce?” ou perguntas que me deixam assustado e que dês de muito jovem as pessoas me fazem como “e as namoradas?” ou “Você gosta da fruta?”. Claro que o senso comum, como pessoas alienadas para fazer o serviço braçal industrial, nem sabe o que estão perguntando, pois se percebesse que a vida não é um jogo de futebol nem ligava do time das pessoas e nem muito menos, tratava a mulher como se fosse mero objeto sexual. Aliás, se isso não acontecesse, não haveria tantas feministas enfurecidas achando que todo homem é um inútil – vendo esse tipo de pergunta concordo com elas – nem mulheres desconfiadas e dizendo que todo homem é igual. Por outro lado – porque adoro ser o advogado do diabo – se tem homens que tratam mulheres assim é porque existem mulheres que gostam de um “Cinquenta tons de cinza” e se existe mulheres dizendo que todo homem é igual, é porque só se relacionam com esse tipo de homem. Que tal refletirem sobre isso? Será que o time da outra pessoa é importante? Já deu para perceber que o importante e o que podemos refletir de si para si. Voltamos a filosofia.
Vamos analisar a pergunta “qual sua filosofia?” para entendemos o
que poderia ser “sua filosofia”. O termo “qual” empregado na
pergunta que segundo o Michaelis eletrônico, dará o termo de
qualidade aquilo que se quer saber do outro, nesse caso, a filosofia.
Se perguntamos “qual sua filosofia?” estamos já definindo o que
seria filosofia para nós mesmo de ler ou de aprender – é
realmente um tédio manuais de filosofia de hoje como manuais de
etiqueta filosófica – o que seria, o significado e o porque se
filosofa. Ai está alguns erros, a imposição ideológica fazem a
nós enxergarmos a filosofia como um meio de propagar essa ideologia,
mas a filosofia pode fazer o inverso e contestará ideologia
predominante. Posso ser um anarco-libertário – não existe
anarco-capitalista – e contestar a democracia que não está dando
o resultado que se propõe que é governar com o povo. Isso é papel
da filosofia e é besteira achar que tem essas inúmeras separações,
só são estudos de cada matéria, mas tudo é filosofia. Depois vem
o termo “sua” que é a variação feminina do pronome possessivo
“seu”, porque tudo que é “seu” pertence a você e se você
diz “sua filosofia” é porque você pergunta algo seu, de sua
posse. O “qual” dará a qualidade e o “sua” lhe dará a posse
daquilo que se quer saber do outro, assim, chegamos a “filosofia”.
Diz uma lenda muito conhecida no meio filosófico é que chegaram
para Pitágoras de Samos e lhe chamaram de sábio, então Pitágoras
teria virado e dito “Eimai philosophós”, ou seja, “eu sou um
amigo da sabedoria”. Foi assim:
“Certa vez, enquanto assistia aos jogos olímpicos, o príncipe
Leon perguntou a ele como definiria a si mesmo. Pitágoras respondeu:
“Eu sou um filósofo”. O príncipe ficou intrigado. O filósofo
olhou a seu redor e explicou: “Na multidão aqui reunida, alguns
vieram em busca de fama, outros à procura de lucros. Mas entre eles,
alguns vieram observar e entender o que se passa aqui. Eu os chamo de
filósofos. Embora nenhum homem seja completamente sábio, o filósofo
ama a sabedoria como a chave para os segredos da natureza.””
(tirado do site: Hoje Ciência das Crianças)
Ora, essa “philia” que o grego antigo tinha como um amor amizade,
era muito mais profundo o que definimos hoje a amizade. Nem todo
mundo poderia ser seu amigo, porque o termo amigo (philós) era uma
coisa muito mais sagrada, muito mais intima e quase espiritual
(Jeager, uns dos grandes estudiosos sobre os gregos antigos, vai
dizer que é um termo completamente espiritual junto com “ethos”).
Ser amigo (philós) para o grego era muito mais do que ser ético
(ithikes) e sim, existir uma afinidade entre você e o amigo que te
acompanha. Talvez, possamos ter uma noção o que Pitágoras disse
quando se definiu como “amigo da sabedoria”, pois a sabedoria
(sophia) é a sua amiga mais intima e você pode dialogar com ela e
outra coisa que fica muito bem definida dentro da resposta do
filósofo de Samos, que o verdadeiro filósofo observa para entender.
Agora estamos no caminho de entender a pergunta: “Qual sua
filosofia?” para entender a qualidade do sua amizade a sabedoria.
Talvez, essa é a definição do filósofo, um observador. Observar
aquilo que muitas vezes, te espanta e de dará grandes motivos para
pergunta o “porquê” daquilo. Eu poderia, por exemplo, responder
a pergunta “que time você torce?” com duas características:
primeiro, poderia dizer que meu time era o Corinthians, mas hoje não
sou muito fã de futebol (termo vindo da Inglaterra “football”,
traduzindo, “Bola nos pés”); ou poderia responder em uma analise
mais profunda dizendo que não me agrada ver 22 homens correndo atrás
de uma bola colorida e ganhando milhões só para isso. Mas nas duas
analises, como cheguei a essas conclusões? Observando. Mas além da
observação, está dentro do contexto as minhas duvidas e minhas
indagações que me levam a se espantar que um jogo infantil
medieval, hoje, é financiado por milhões em dinheiro. De onde vem
esse dinheiro? Será mesmo que esses jogadores ganham esse milhões?
Milhões que poderiam ser convertidos, talvez, com crianças
refugiadas ou para acabar com a fome de alguns países africanos, mas
gastamos milhões em jogos de futebol. Talvez, poderíamos dizer que
os “cartolas” exploram a “catarse” para ganhar esses milhões,
como a maioria das igrejas de garagem, o fazem. Mas não é só isso,
deve ter mais coisa por trás disso e espanta cada vez mais a mim –
como observador assíduo – são pessoas estudadas terem essa visão
que existe uma obrigação quase religiosa, de ter um time para
torcer. Daí eu pergunto: qual a razão disso tudo? Por que perder
tempo observando 22 jogadores dentro de um campo e um cara de preto
apitando e seguindo a regra (dependendo da maleta preta, mas é outro
assunto)? Não a toa, vamos chamar os romanos de observadores muito
ruins, aliás, o império romano degenerou todo e qualquer meio de
criatividade, porque não tinha razão de ser de homens lutarem até
a morte e o povo achar graça naquilo.
Ora, um filósofo é um observador da cultura e pode muito bem,
contestar o que ele deseja contestar porque são analises de suas
observações. Ou como diria Immanuel Kant, ousar saber (sapere
audi), que ele pegou emprestado do poeta romano, Horácio. De
repente, quando as pessoas te perguntarem “e as namoradas?” você
pode responder com uma risada irônica – como o senso comum
machista e alienado faz - ou diz que você é comprometido. Nós
podemos olhar e achar outra pessoa bonita, mas existe um apoio ético
dentro do compromisso que te faz pensar se é melhor uma aventura de
uma noite ou varias noites, ou o respeito e o companheirismo que tua
mulher ou teu marido lhe proporciona. Mas é já sabido, pelo menos
para quem observa, que a essência dessa pergunta é uma essência de
uma cultura que lhe mostra que numa simples cantiga infantil nos
fazem ir a um anel que tínhamos e se quebrou porque era de vidro e o
amor quebra no mesmo patamar. A imagem do anel é uma imagem de
compromisso, uma imagem que um deve ser fiel ao amor do outro não
por obrigação, não é esse dever que me refiro, mas o encontro do
seu próprio sentimento. O filósofo não julga, mas observa e
analisa profundamente (critica), essa posição. Por que se
comprometemos e ao perguntar para outro homem, como se todos devessem
pensar ou agir igual, se temos “namoradas”? Ou se “gostamos da
fruta” querendo dizer se gostamos de mulher? Não existe nenhum
beneficio nessas perguntas que possamos dizer se temos o direito de
perguntar. Não há
compromisso consigo mesmo, porque nos esquecemos dos nossos
sentimentos, esquecemos no que sentimos e o que temos de verdadeiro,
que nem a realidade e nem a verdade existe.
Podemos, então, dizer que não basta só observar e sim, indagar
aquilo que se observa. Tales de Mileto, há
uns dois mil e quinhentos anos, foi o primeiro a perguntar o “Por
que?” de tudo que existe, porque para ele, não bastava a
explicação que todo mundo dava. Com ele aparece o ato de filosofar
e com Pitágoras de Samos, se cria o termo para isso. A filosofia não
é e nunca sera apenas um ato de colocar tudo no modo da razão
(logos/ratio), mas até o modo racional pode ser contestado como
“tudo flui” de Heráclito de Abdera e que não existem
racionalidades e irracionalidade. Talvez, se fomos mais a fundo na
questão, um ato de corrupção seja um ato racional levado a não
tem sentimento daquilo que vai ocasionar tirar o dinheiro de alguma
área da administração publica. Ou até mesmo, por exemplo, a
traição é um ato de puro instinto libidinoso que é um sentimento
de falta – cada qual deseja aquilo que não tem que pode ser um ato
de alienação e escravização daquilo que se é condicionado – e
que não sabem diferenciar do que temos e o que não temos. Nem tanto
a razão e nem tanto a emoção, tudo deve conter um equilíbrio para
saber o que é que desejamos dentro do nosso universo. Freud disse
que vivemos sempre fugindo da morte, sempre desejamos porque sempre
desejamos a vida na sua plenitude, fugimos do deus Tânatos (morte).
Nos escravizamos em desejos, promessas e luxos para fugimos de uma
coisa inevitável e o pior, sempre desejamos a felicidade, mas nunca
o ser humano o a quer. Ou podemos achar que quem trai é acometido de
felicidade? Momentos felizes em uma balada ou tomando barris de
cerveja, não é a verdadeira felicidade e sim, só um momento feliz.
Um momento que tiramos a angustia de saber que não somos importantes
para nós e pensamos, numa hipótese da ilusão que nos colocaram,
ser para o outro também. Como olhar isso com profundidade? Como o
ser pode ir até a filosofia ultima? O NADA pode ser a resposta, pois
quando esvaziamos todos os nossos conceitos, não temos nada a nos
apoiar dai podemos conhecer a nós mesmos. A razão e a emoção sem
ética, não conduz o ser humano a felicidade.
Temos que questionar essa racionalidade dentro da filosofia que
colocaram como quase um atentado a ela, porque nem sempre não
acreditar é racional (rationale) e sim, questionar aquilo. Algumas
pessoas usam a filosofia como forma de questionar aquilo que todos
seguem, como a religião, mas acreditam cegamente nas outras coisas
como descobertas cientificas e ideologias politicas. Ora, questionar
a veracidade do homem pisar na Lua é uma questão também da
filosofia, porque existem vários fatores na época, que nos fazem
duvidar do ato em si mesmo. Existem fatores também que colaboram
para a analise de ideologias como a marxista – que se mostrou
ineficiente com a URSS – a ideologia liberal capitalista e as
ideologias fascistas. Sobrando, não resta duvida, que a realidade
onde vivemos é uma mera ilusão, algo que reduz ao ser humano em
meras “ovelhas”.
Mas ainda tenho que responder “qual sua filosofia?”, mas não
tenho e sim respondo o que me é permitido. Se sei expressar eu posso
responder, se não sei eu devo me calar, por uma limitação de
termos que ainda não descobri e se eu descobri, direi. Dai voltamos
a ideia da “ovelha” que sempre está vendo as realidades que
impõe a ela ver, porque mesmo não sabendo expressar, mesmo sabendo
que aquilo pode não existir, ainda sim, tem confiança de se apoiar
naquilo. Quem em uma clara “gota” de racionalidade pode conceber,
por exemplo, que um foguete com milhões de toneladas e com a
tecnologia rudimentar em 1969? Quem poderia ter gravado, sendo que
uma câmera daquela época pesava muito? Pode ser que foram, mas pode
não ter ido para Lua e tudo não passou de encenação para guardar
a soberania armamentística norte-americana. Não aceitar um fato é
também filosofar, não só no posicionamento de algum fato
religioso, mas todos os fatos que envolveram a historia. Podemos
questionar o “11 de Setembro” e dizer que foi o governo
norte-americano que fez para justificar a invasão do Afeganistão,
além disso, consolidar a supremacia com a invasão do Iraque. A
observação me faz alguém diferente daquilo que as pessoas me
querem que seja e talvez, por isso mesmo, seja chamado de filósofo.
Mas filósofo não é, de maneira nenhuma, um sujeito que pensa
apenas, mas aquilo que pratica o que pensa. Como praticar filosofia?
As inúmeras filosofias orientais sabem fazer isso, sabem praticar o
NADA e não serem niilistas, porque acreditam em algo.
Talvez a “minha filosofia” seja tudo que vivi e tudo que tenho
que viver, observando que nenhuma ideologia politica vai nos ajudar a
encontrar a felicidade, nenhuma religião (de religare) vai trazer
uma verdadeira espiritualidade e talvez, o “Deus” que procuramos
está num lugar errado. Talvez, a “minha filosofia” não pode ser
vista porque ela não tem amarras, não tem tutores ideológicos e
nem posições, porque o papel do filósofo não é tomar posições,
mas analisar as posições que existem. Sim, sai da Caverna aos 18
anos.
Amauri Nolasco Sanches Junior, 39, publicitário, técnico de
informática e filósofo.