sexta-feira, 25 de setembro de 2015

É minha a Filosofia?








        Todos que discuto filosofia me perguntam: qual sua filosofia? Me faz imaginar que as pessoas imaginam que a filosofia seja como escolher um time de futebol, que essa pergunta seria a mesma pergunta que o senso comum sempre faz: “Que time você torce?” ou perguntas que me deixam assustado e que dês de muito jovem as pessoas me fazem como “e as namoradas?” ou “Você gosta da fruta?”. Claro que o senso comum, como pessoas alienadas para fazer o serviço braçal industrial, nem sabe o que estão perguntando, pois se percebesse que a vida não é um jogo de futebol nem ligava do time das pessoas e nem muito menos, tratava a mulher como se fosse mero objeto sexual. Aliás, se isso não acontecesse, não haveria tantas feministas enfurecidas achando que todo homem é um inútil – vendo esse tipo de pergunta concordo com elas – nem mulheres desconfiadas e dizendo que todo homem é igual. Por outro lado – porque adoro ser o advogado do diabo – se tem homens que tratam mulheres assim é porque existem mulheres que gostam de um “Cinquenta tons de cinza” e se existe mulheres dizendo que todo homem é igual, é porque só se relacionam com esse tipo de homem. Que tal refletirem sobre isso? Será que o time da outra pessoa é importante? Já deu para perceber que o importante e o que podemos refletir de si para si. Voltamos a filosofia.
Vamos analisar a pergunta “qual sua filosofia?” para entendemos o que poderia ser “sua filosofia”. O termo “qual” empregado na pergunta que segundo o Michaelis eletrônico, dará o termo de qualidade aquilo que se quer saber do outro, nesse caso, a filosofia. Se perguntamos “qual sua filosofia?” estamos já definindo o que seria filosofia para nós mesmo de ler ou de aprender – é realmente um tédio manuais de filosofia de hoje como manuais de etiqueta filosófica – o que seria, o significado e o porque se filosofa. Ai está alguns erros, a imposição ideológica fazem a nós enxergarmos a filosofia como um meio de propagar essa ideologia, mas a filosofia pode fazer o inverso e contestará ideologia predominante. Posso ser um anarco-libertário – não existe anarco-capitalista – e contestar a democracia que não está dando o resultado que se propõe que é governar com o povo. Isso é papel da filosofia e é besteira achar que tem essas inúmeras separações, só são estudos de cada matéria, mas tudo é filosofia. Depois vem o termo “sua” que é a variação feminina do pronome possessivo “seu”, porque tudo que é “seu” pertence a você e se você diz “sua filosofia” é porque você pergunta algo seu, de sua posse. O “qual” dará a qualidade e o “sua” lhe dará a posse daquilo que se quer saber do outro, assim, chegamos a “filosofia”. Diz uma lenda muito conhecida no meio filosófico é que chegaram para Pitágoras de Samos e lhe chamaram de sábio, então Pitágoras teria virado e dito “Eimai philosophós”, ou seja, “eu sou um amigo da sabedoria”. Foi assim:
“Certa vez, enquanto assistia aos jogos olímpicos, o príncipe Leon perguntou a ele como definiria a si mesmo. Pitágoras respondeu: “Eu sou um filósofo”. O príncipe ficou intrigado. O filósofo olhou a seu redor e explicou: “Na multidão aqui reunida, alguns vieram em busca de fama, outros à procura de lucros. Mas entre eles, alguns vieram observar e entender o que se passa aqui. Eu os chamo de filósofos. Embora nenhum homem seja completamente sábio, o filósofo ama a sabedoria como a chave para os segredos da natureza.”” (tirado do site: Hoje Ciência das Crianças)


Ora, essa “philia” que o grego antigo tinha como um amor amizade, era muito mais profundo o que definimos hoje a amizade. Nem todo mundo poderia ser seu amigo, porque o termo amigo (philós) era uma coisa muito mais sagrada, muito mais intima e quase espiritual (Jeager, uns dos grandes estudiosos sobre os gregos antigos, vai dizer que é um termo completamente espiritual junto com “ethos”). Ser amigo (philós) para o grego era muito mais do que ser ético (ithikes) e sim, existir uma afinidade entre você e o amigo que te acompanha. Talvez, possamos ter uma noção o que Pitágoras disse quando se definiu como “amigo da sabedoria”, pois a sabedoria (sophia) é a sua amiga mais intima e você pode dialogar com ela e outra coisa que fica muito bem definida dentro da resposta do filósofo de Samos, que o verdadeiro filósofo observa para entender. Agora estamos no caminho de entender a pergunta: “Qual sua filosofia?” para entender a qualidade do sua amizade a sabedoria.
Talvez, essa é a definição do filósofo, um observador. Observar aquilo que muitas vezes, te espanta e de dará grandes motivos para pergunta o “porquê” daquilo. Eu poderia, por exemplo, responder a pergunta “que time você torce?” com duas características: primeiro, poderia dizer que meu time era o Corinthians, mas hoje não sou muito fã de futebol (termo vindo da Inglaterra “football”, traduzindo, “Bola nos pés”); ou poderia responder em uma analise mais profunda dizendo que não me agrada ver 22 homens correndo atrás de uma bola colorida e ganhando milhões só para isso. Mas nas duas analises, como cheguei a essas conclusões? Observando. Mas além da observação, está dentro do contexto as minhas duvidas e minhas indagações que me levam a se espantar que um jogo infantil medieval, hoje, é financiado por milhões em dinheiro. De onde vem esse dinheiro? Será mesmo que esses jogadores ganham esse milhões? Milhões que poderiam ser convertidos, talvez, com crianças refugiadas ou para acabar com a fome de alguns países africanos, mas gastamos milhões em jogos de futebol. Talvez, poderíamos dizer que os “cartolas” exploram a “catarse” para ganhar esses milhões, como a maioria das igrejas de garagem, o fazem. Mas não é só isso, deve ter mais coisa por trás disso e espanta cada vez mais a mim – como observador assíduo – são pessoas estudadas terem essa visão que existe uma obrigação quase religiosa, de ter um time para torcer. Daí eu pergunto: qual a razão disso tudo? Por que perder tempo observando 22 jogadores dentro de um campo e um cara de preto apitando e seguindo a regra (dependendo da maleta preta, mas é outro assunto)? Não a toa, vamos chamar os romanos de observadores muito ruins, aliás, o império romano degenerou todo e qualquer meio de criatividade, porque não tinha razão de ser de homens lutarem até a morte e o povo achar graça naquilo.
Ora, um filósofo é um observador da cultura e pode muito bem, contestar o que ele deseja contestar porque são analises de suas observações. Ou como diria Immanuel Kant, ousar saber (sapere audi), que ele pegou emprestado do poeta romano, Horácio. De repente, quando as pessoas te perguntarem “e as namoradas?” você pode responder com uma risada irônica – como o senso comum machista e alienado faz - ou diz que você é comprometido. Nós podemos olhar e achar outra pessoa bonita, mas existe um apoio ético dentro do compromisso que te faz pensar se é melhor uma aventura de uma noite ou varias noites, ou o respeito e o companheirismo que tua mulher ou teu marido lhe proporciona. Mas é já sabido, pelo menos para quem observa, que a essência dessa pergunta é uma essência de uma cultura que lhe mostra que numa simples cantiga infantil nos fazem ir a um anel que tínhamos e se quebrou porque era de vidro e o amor quebra no mesmo patamar. A imagem do anel é uma imagem de compromisso, uma imagem que um deve ser fiel ao amor do outro não por obrigação, não é esse dever que me refiro, mas o encontro do seu próprio sentimento. O filósofo não julga, mas observa e analisa profundamente (critica), essa posição. Por que se comprometemos e ao perguntar para outro homem, como se todos devessem pensar ou agir igual, se temos “namoradas”? Ou se “gostamos da fruta” querendo dizer se gostamos de mulher? Não existe nenhum beneficio nessas perguntas que possamos dizer se temos o direito de perguntar. Não compromisso consigo mesmo, porque nos esquecemos dos nossos sentimentos, esquecemos no que sentimos e o que temos de verdadeiro, que nem a realidade e nem a verdade existe.
Podemos, então, dizer que não basta só observar e sim, indagar aquilo que se observa. Tales de Mileto, uns dois mil e quinhentos anos, foi o primeiro a perguntar o “Por que?” de tudo que existe, porque para ele, não bastava a explicação que todo mundo dava. Com ele aparece o ato de filosofar e com Pitágoras de Samos, se cria o termo para isso. A filosofia não é e nunca sera apenas um ato de colocar tudo no modo da razão (logos/ratio), mas até o modo racional pode ser contestado como “tudo flui” de Heráclito de Abdera e que não existem racionalidades e irracionalidade. Talvez, se fomos mais a fundo na questão, um ato de corrupção seja um ato racional levado a não tem sentimento daquilo que vai ocasionar tirar o dinheiro de alguma área da administração publica. Ou até mesmo, por exemplo, a traição é um ato de puro instinto libidinoso que é um sentimento de falta – cada qual deseja aquilo que não tem que pode ser um ato de alienação e escravização daquilo que se é condicionado – e que não sabem diferenciar do que temos e o que não temos. Nem tanto a razão e nem tanto a emoção, tudo deve conter um equilíbrio para saber o que é que desejamos dentro do nosso universo. Freud disse que vivemos sempre fugindo da morte, sempre desejamos porque sempre desejamos a vida na sua plenitude, fugimos do deus Tânatos (morte). Nos escravizamos em desejos, promessas e luxos para fugimos de uma coisa inevitável e o pior, sempre desejamos a felicidade, mas nunca o ser humano o a quer. Ou podemos achar que quem trai é acometido de felicidade? Momentos felizes em uma balada ou tomando barris de cerveja, não é a verdadeira felicidade e sim, só um momento feliz. Um momento que tiramos a angustia de saber que não somos importantes para nós e pensamos, numa hipótese da ilusão que nos colocaram, ser para o outro também. Como olhar isso com profundidade? Como o ser pode ir até a filosofia ultima? O NADA pode ser a resposta, pois quando esvaziamos todos os nossos conceitos, não temos nada a nos apoiar dai podemos conhecer a nós mesmos. A razão e a emoção sem ética, não conduz o ser humano a felicidade.
Temos que questionar essa racionalidade dentro da filosofia que colocaram como quase um atentado a ela, porque nem sempre não acreditar é racional (rationale) e sim, questionar aquilo. Algumas pessoas usam a filosofia como forma de questionar aquilo que todos seguem, como a religião, mas acreditam cegamente nas outras coisas como descobertas cientificas e ideologias politicas. Ora, questionar a veracidade do homem pisar na Lua é uma questão também da filosofia, porque existem vários fatores na época, que nos fazem duvidar do ato em si mesmo. Existem fatores também que colaboram para a analise de ideologias como a marxista – que se mostrou ineficiente com a URSS – a ideologia liberal capitalista e as ideologias fascistas. Sobrando, não resta duvida, que a realidade onde vivemos é uma mera ilusão, algo que reduz ao ser humano em meras “ovelhas”.
Mas ainda tenho que responder “qual sua filosofia?”, mas não tenho e sim respondo o que me é permitido. Se sei expressar eu posso responder, se não sei eu devo me calar, por uma limitação de termos que ainda não descobri e se eu descobri, direi. Dai voltamos a ideia da “ovelha” que sempre está vendo as realidades que impõe a ela ver, porque mesmo não sabendo expressar, mesmo sabendo que aquilo pode não existir, ainda sim, tem confiança de se apoiar naquilo. Quem em uma clara “gota” de racionalidade pode conceber, por exemplo, que um foguete com milhões de toneladas e com a tecnologia rudimentar em 1969? Quem poderia ter gravado, sendo que uma câmera daquela época pesava muito? Pode ser que foram, mas pode não ter ido para Lua e tudo não passou de encenação para guardar a soberania armamentística norte-americana. Não aceitar um fato é também filosofar, não só no posicionamento de algum fato religioso, mas todos os fatos que envolveram a historia. Podemos questionar o “11 de Setembro” e dizer que foi o governo norte-americano que fez para justificar a invasão do Afeganistão, além disso, consolidar a supremacia com a invasão do Iraque. A observação me faz alguém diferente daquilo que as pessoas me querem que seja e talvez, por isso mesmo, seja chamado de filósofo. Mas filósofo não é, de maneira nenhuma, um sujeito que pensa apenas, mas aquilo que pratica o que pensa. Como praticar filosofia? As inúmeras filosofias orientais sabem fazer isso, sabem praticar o NADA e não serem niilistas, porque acreditam em algo.
Talvez a “minha filosofia” seja tudo que vivi e tudo que tenho que viver, observando que nenhuma ideologia politica vai nos ajudar a encontrar a felicidade, nenhuma religião (de religare) vai trazer uma verdadeira espiritualidade e talvez, o “Deus” que procuramos está num lugar errado. Talvez, a “minha filosofia” não pode ser vista porque ela não tem amarras, não tem tutores ideológicos e nem posições, porque o papel do filósofo não é tomar posições, mas analisar as posições que existem. Sim, sai da Caverna aos 18 anos.


Amauri Nolasco Sanches Junior, 39, publicitário, técnico de informática e filósofo.  

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