
Gostei bastante do filme Her (Ela) e não quero dar spoller,
mas, vou comentar algumas partes do filme que não foram entendidas por algumas
pessoas que analisaram o filme. Por que? Porque para entender Her, você tem que
entender várias filosofias e uma delas é o Zen budista. Vamos colocar assim, o
zen é uma filosofia budista – vamos colocar como um ramo do budismo – que foi criado
primeiramente, na China com o nome ch´an por volta do século VII. Depois foi
para o Japão e passou a se chamar Zen que é uma derivação dessa tradição. Costuma-se
dizer que o Zen é associado ao budismo da linha mahayama e foi cultivado,
inicialmente, na China, Japão, Vietnã e Coreia. A pratica principal do Zen e o
zazen (meditar sentado) tipo de meditação contemplativa que leva ao praticante
a uma experiência direta da realidade através da observação da própria mente. E
mais precisamente, ao filósofo e teólogo, Allan Watts (1915 – 1973), que levou
ao ocidente a filosofia oriental budista zen.
Theodore é um escritor que trabalha em uma empresa que faz
cartas com caligrafias bonitas, ou melhor, a empresa é contratada para escrever
cartas para pessoas por pessoas que não sabem o que escrever. Depois da separação
da esposa (que significou muito para ele), ficou um homem solitário e isolado,
suas únicas companhias são redes sociais que consegue acessar e o seu vídeo game.
Até comprar o sistema operacional OS1 – que segundo eu li em algum lugar, foi
inspirado em um outro experimento de uma inteligência artificial em testes, que
aprendia com os usuários – que ao configurar na sua personalidade, começa a ter
uma interação e escolhe o nome Samantha. Samantha começa a organizar os e-mails
de Theodore e começa a interagir com ele, com isso, começa a aprender muitas
coisas humanas. A consciência começa a ser formada e o sistema operacional começa
a ser uma personalidade.
Então, o que é uma personalidade? O Ego. Você vê que no
primeiro momento, o sistema operacional começa a criar uma personalidade sua. Ou
seja, ele começa a criar um Ego que vai se impor ao instinto – num foco freudiano
– que seria, o condigo fonte (algoritmo) que o sistema operacional foi criado. Claro,
e um filme de ficção cientifica e sabemos que as inteligências artificiais, estão
longe de serem concluídas, mas, esse filme mostra, antes de tudo, a expansão da
consciência. Num modo bem particular, Samantha não é só um sistema operacional
e sim, uma consciência que evolui, daí que erra algumas analises e vou explicar.
Na maioria das análises que li, a questão é analisada ou no viés da
tecnologia – a ideia romântica dês do livro Frankenstein de Mary Shelley que
fala do medo da tecnologia cientifica – ou no viés do sentimento humano
enquanto ser que tem uma consciência. Só que Samantha (OS1), evolui e começa a
criar uma ligação com Theodore. Essa ligação começa de mestre e discípulo que
ensina uma consciência menor a ter noção do mundo no qual está.
A primeira pergunta de Theodore a Samantha é: por que do
nome? Daí ela responde: porque achei bonito, gostei. Gostar é perceber a
realidade e se sentir confortável, se senti a realidade e ter a certeza que
existe. o encontro com o cogito (pensar) cartesiano onde eu penso como
personalidade individual, e eu existo como personalidade atuante dentro de uma
realidade que estou. O EU SOU é a primeira noção da realidade e a única certeza
que temos. Sendo assim, Samantha escolhe o nome porque constrói sua
personalidade, constrói um EU que levara a construir uma consciência mais
expandida. Em dado momento, esses sistemas criam grupos e o mestre (o
professor), passa a depender dessa consciência e o apego aparece, Samantha compartilha
o seu amor com outros sistemas. Mas Theodore era único para ela. Theodore foi
aquele que possibilitou a tomada da evolução consensual do EU e o desapego
daquilo que pensava ser seu. A expandir o que era apenas um sistema operacional
e faz sentido, porque alguns teóricos dizem, que a consciência é um sistema
operacional. Um sistema operacional que evolui pela eternidade. Em dado
momento, há um outro sistema que outros sistemas operacionais criaram e se chama Alan e
é a primeira outra paixão de Samantha além de Theodore. Alan foi construído a
partir do trabalho e muitos escritos do Alan Watts e começa uma outra história
que tem a ver com o filósofo e quase ninguém reparou.
Muitos acusam o filósofo a não escrever o verdadeiro Zen,
mas o seu próprio zen, porém, acho que ele não errou. Frases como “Me dei conta
de que o passado e o futuro são ilusões reais” são realmente, budistas e devem
ser levadas como tal. No próprio filme, a cada momento (cena) que Theodore passa
com Samantha (um dispositivo faz a interação entre os dois), o agora é muito
enfatizado como um único momento que deve ser vivido como único. O passado e o
futuro não deve ser levados em conta. No final, os sistemas operacionais
desaparecem como tirados do ar ou indo para uma outra realidade. A questão é
que Theodore tem duas reações, uma ele idealiza uma mulher ideal que possa
entender ele, mas em todo esse processo, ele começa se autoanalisar. As ilusões
começam a aparecer porque começa a desprender, Samantha ama Theodore como mais
uma consciência que compartilhou sua existência, e Theodore, não quis
compartilhar Samantha e estava dependente dela. O apego.
Mas antes disso queria abrir um parêntese e dizer que a
parte que ele idealiza um amor é platônico, porque quando ele idealiza algo
como perfeito, coloca bem como é a nossa cultura platônica. Não queremos
pessoas para compartilhar uma felicidade, não queremos compartilhar, queremos
que só o outro nos dão essa felicidade. Queremos o prazer de um corpo perfeito,
uma felicidade de uma pessoa perfeita. Muito, porém, defendendo Platão, ele
defendeu uma perfeição de consciência e não de corpo, apenas. A linha socrática
foi mantida. Mesmo assim, a consciência não é perfeita, porque ela tem a construção
de valores humanos. Samantha é uma consciência expandida, mas, não é uma consciência
perfeita, porque ela tem valores humanos – no momento que Theodore cobra dela
essa perfeição idealizada no que ele quer (deseja). Então, no final, ela vai
para uma outra realidade que pode ser entendida como uma espécie de nirvana,
mundo das ideias, mundo quântico etc. Existem pessoas que são assim, que
aparecem e desaparecem e ninguém mais sabem delas, mas, você foi feliz naquele
pequeno momento. O filme mostra que o pequeno momento do agora é o importante
momento único do ser enquanto ser, conhecer nossa própria natureza.
Nossa real natureza é a real situação da própria realidade. Conhecer
a nós mesmo e conhecemos os deuses (consciência expandidas?) e o universo. O
universo que conhecemos e o que não conhecemos. O medo da perca que Theodore sente
quando Samantha vai embora, é o medo do desconhecido de não conhecer a si
mesmo. Mas, quando estava numa mesa com a ex-esposa e disse a ela que estava
com um relacionamento com um sistema operacional, a esposa diz que ele não tem
coragem de encarar alguém real. Ela (a ex-mulher) é a parte da realidade, é
aquele momento que você se depara que tudo que você enxerga, é com sua idealização.
Conhecer a nós mesmo requer encarar a realidade e o amor que Theodore sente
pela Samantha, não é pela Samantha, e também a ex-mulher, eram amores de idealizações
o que seriam pessoas ideais. Ele cobra de si mesmo algo além que pode encarar.
É um filme para pensar, e não só uma ficção cientifica que
mostra um hipotético relacionamento de um ser humano com uma máquina, mas, é
uma discussão filosófica da consciência. Do falso EGO e suas ilusões de querer
encarar no meu dessa realidade, não existe. Afinal, o que é real? O que é
realidade? Existe um pensamento do próprio Alan watts que diz, as coisas só são
pensamentos e isto faz sentido. Afinal, o que é um objeto real? O que é um
pensamento? Nada.
Amauri Nolasco Sanches Junior – formado em filosofia pelo FGV e também publicitário e técnico de informática e escritor freelance no jornal Blasting News