sábado, 29 de junho de 2024

MANUAL PARA O NERD REDPILL – O CONCEITO DA FORÇA





 

 Não há emoção, há paz.

Não há ignorância, há conhecimento.

Não há paixão, há serenidade.

Não há caos, há harmonia.

Não há morte, há a Força.

(O Código Jedi)

 

 

Há uma discussão nos grupos de fãs de Star Wars (eu gosto, mas não me considero fã), onde mudaram o preceito da Força, pois, as bruxas (The Acolyte) dizem que é um fio que liga todas as coisas. Os jedis – filósofos e guardiões da paz e da república – interpretam a força (no livro O Caminho Jedi) como: “...a FORÇA é um campo energético criado por todas as coisas vivas". Ou seja, não há nenhuma diferença dentro do que as bruxas disseram, mas, tem a ver com a linguagem da questão. Porque, segundo o Mestre Bowspritz, as células – através dos midi-chlorians – canalizam (fluem) a energia da Força. Mesmo porque, segundo o mestre, “nós não bebemos a tigela, mas sim a sopa que ela contém”.

Mas, existem dois conceitos básicos dela dentro da história: a Força Viva e a Força Unificadora. Que consistem em:

 

 – “A Força Viva é criada através de todos os seres vivos. Quando seres morrem, um Jedi pode sentir através da Força Viva. Quando muitos morrem de uma só vez, a perda de energia pode chocar ou até mesmo derrubar um Jedi. Todas as habilidades tangíveis da Força - como correr, saltar, aguçar os sentidos, mover objetos ou acalmar emoções alheias - são técnicas pelas quais os Jedi se tornam agentes da Força Viva.”

– “A Força Cósmica é um vasto poder cósmico e transcendente e que determina a vontade da Força. Ao meditar com a Força Cósmica, pode-se vislumbrar o passado e os possíveis futuros, e obter informação sobre o destino.”

 

Como vimos (através da Wikipedia e confirmado aqui no O Caminho Jedi), as bruxas não sentem a Força Viva e sim a Força Unificadora ou Cósmica. Ainda no O Caminho Jedi:

“A Força Unificadora é um vasto poder cósmico. Vocês (os iniciados) ainda não conseguem senti-la, mas, com paciência e reflexão, sentirão. A Força Unificadora são as estrelas e galáxias, a superfície agitada do tempo e do espaço. Ela é a voz que sussurra sobre seus destinos, e podem ter certeza; a Força tem vontade própria. Dialogar com a Força Unificadora é deixar o corpo em caráter temporário, para caminha  pelo passado ou ver o futuro. Alguns ancestrais acreditam ser possível transcender a morte” (Jedi, O Caminho p. 36)

Ou melhor, há uma questão bastante importante quando fazemos uma critica dentro de uma obra literária ou cinematográfica: primeiro, trazer elementos que possam colaborar com que estamos dizendo, segundo, ter em mente que meras opiniões não são conhecimentos e sim, achismos levados ao impulso de responder rápido. Requer estudo e pesquisa. Mesmo com conceitos como esse de ficção cientifica que para entender, temos que saber que seu criador George Lucas gostava ou gosta, de filmes de samurais. Por outro lado, Lucas disse em uma entrevista que:

 

Não acho que “Guerra nas Estrelas” seja profundamente religioso. Acho que a saga juntou todos os aspectos que a religião representa e tentou destilar isso em uma coisa mais moderna e mais acessível em que as pessoas possam se apegar para aceitar o fato de que há um mistério maior lá fora.

Quando eu tinha 10 anos eu perguntei para minha mãe. “Se existe um só Deus, por que há tantas religiões?” E desde então, eu reflito sobre essa questão. A conclusão que eu cheguei é que todas as religiões são verdadeiras… Elas apenas veem a mesma coisa sob diferentes aspectos.

A religião é, basicamente, um repositório para fé. A fé é a “liga” que nos mantém juntos como uma sociedade. Fé na nossa cultura… no nosso mundo… ou qualquer outra coisa em que estamos tentando nos apoiar. É uma parte muito importante, eu acho… que nos permite continuar estáveis, em equilíbrio.

Eu coloquei a Força nos filmes… para despertar um certo tipo de espiritualidade nos jovens. É mais uma crença em Deus do que em qualquer sistema religioso. A verdadeira questão é fazer a pergunta! Porque se você não tem interesse suficiente nos mistérios da vida… Para fazer a pergunta “Existe ou não um Deus?”… Para mim, essa é a pior coisa que pode acontecer. Se perguntar a um jovem se existe um Deus, ele disser que não. Acho que você deve ter uma opinião sobre isso.”. (Blog: Sociedade Jedi)

 

 

Amauri Nolasco Sanches Júnior 
– bacharel em filosofia, TI, publicitário e cadeirante

quarta-feira, 26 de junho de 2024

A VISÃO DIALETICA DA ESPIRITUALIDADE

 

 



Lendo um texto do colega Luiz Salvi (link do blog aqui), me deu saudade dos tempos que eu escrevia sobre coisas muito mais profundas (que no bacharelado a gente aprende como metafisica) e que tinha um viés mais espiritualista. No texto chamado <<Blavatsky e Bailey: uma grande Dialética>>, nos mostra um outro lado da dialética dentro de autores que podem discordar – no caso dentro do movimento teosófico – e, mesmo assim, ter uma síntese dentro do movimento sem haver um profundo rompimento desse próprio movimento. A questão é que o colega explicou muito bem a dialética, só vou acrescentar algo a mais dentro da questão da dialética.

Ele escreve:

 

<<A Filosofia Dialética pode ser vista resumidamente como análise e síntese, onde a primeira separa e disseca as coisas e a segunda as reúne e organiza, representando assim processos didáticos complementares.>>

 

Para entender a dialética, grosso modo, temos que entender o sistema que a dialética não é uma filosofia e sim, uma parte da filosofia que começa com Platão e vai dar em Marx. Ela tem a fase analítica que examina os elementos de uma ideia, fenômeno ou sistema. A dialética para fazer essa análise, tem que desmontar, separar e investigar as partes que constitui para entender suas características, contradições e relações. Já a síntese é a etapa em que as partes previamente analisas são reunidas e organizadas. Aqui, a dialética supera as contradições identificas na análise, criando uma visão mais abrangente e integrada. A síntese não só reúne os elementos, mas também transforma em algo novo e mais complexo.

 

E por que isso é importante dentro da espiritualidade? Vamos pegar uma obra de ficção cientifica como exemplo como os Jedis e os Sith, pois, são duas formas de enxergar a FORÇA (princípio gerador do universo). Os Jedis representam a luz gerando paz e harmonia dentro da república galáctica (segundo o livro O Caminho do Jedi, eles são filósofos e guardiões dos escritos sobre a FORÇA) e os Sith, são o lado escuro onde há sentimentos bastante nocivos sobre a paz e a harmonia. Se para os Jedis o ódio é o caminho para o lado escuro da FORÇA, os Sith defendem que só se chega a ela, demonstrando raiva e todos os sentimentos para sentir a FORÇA dentro de você numa maior potência. Vamos dizer que a tese é os Jedis e a antítese é os Sith, qual seria a síntese dessa disputa dialética? Os Jedis Cinzas. Mesmo não sendo considerados “canônicos” – como se o ser humano não pudesse encontrar uma convergência entre os lados de encontro – os Jedis Cinzas usam as duas doutrinas para se chegar a FORÇA. Só para dar um exemplo, nos HQs, Ashoka Tanos (que era uma jedi) se transforma em uma Jedi Cinza depois de ver que o erro da dominação Sith (o Império Galáctico) foi dos mestres Jedis e suas regras rígidas (que não fizeram de Anakin Skywalker um mestre jedi).

No caso do texto do meu colega, há uma forma dialética dentro do movimento teosófico (que li bastante) quando podemos ler que Blavatsky – fundadora da Teosofia – que era uma mestra de análise, se destaca em dissecar conceitos e significados, criando um glossário e promovendo uma alfabetização de conteúdo. Suas análises foram importantes para introduzir muitos elementos da filosofia oriental no ocidente – depois, muitos introduziram o budismo e o taoismo seguindo Blavatsky – despertando interesse e facilitando a compreensão mútua. Claro, podemos destacar Schopenhauer que também demonstrou interesse por questões orientais interessantes. E as polemicas em volta da sua obra – que não foram poucas e tem a ver com a questões que ela expõem – que reflete a busca da verdade sua tentativa de combinar vários conhecimentos (que obvio, a igreja cristã não gostou).

Já Alice Bailey, digamos assim, teria uma missão espiritual diferente. Porque, se dedicou a síntese, buscando uma compreensão mais orgânica, prática e operacional. Sua abordagem espiritual envolvia mística interna, ocultismo prático e conhecimento das Hierarquias. Bailey foi aluna de Blavatsky e teve bastante influencia dentro dos seus escritos, mas, enquanto Madame Blavatsky tinha algo mais espiritual, Bailey, era prática. Uma cuidou da parte espiritual e a outra, cuidou das coisas práticas do mundo. Ora, a dialética beneficiou a matéria ocultista (que gosto muito), e espiritual dentro de estudos esotéricos quanto algo bem mais profundo dentro da alma humana.

 

Amauri Nolasco Sanches Junior

– Bacharel em Filosofia, publicitário e técnico de informática

domingo, 15 de abril de 2018

Her (ela) – uma analise








Gostei bastante do filme Her (Ela) e não quero dar spoller, mas, vou comentar algumas partes do filme que não foram entendidas por algumas pessoas que analisaram o filme. Por que? Porque para entender Her, você tem que entender várias filosofias e uma delas é o Zen budista. Vamos colocar assim, o zen é uma filosofia budista – vamos colocar como um ramo do budismo – que foi criado primeiramente, na China com o nome ch´an por volta do século VII. Depois foi para o Japão e passou a se chamar Zen que é uma derivação dessa tradição. Costuma-se dizer que o Zen é associado ao budismo da linha mahayama e foi cultivado, inicialmente, na China, Japão, Vietnã e Coreia. A pratica principal do Zen e o zazen (meditar sentado) tipo de meditação contemplativa que leva ao praticante a uma experiência direta da realidade através da observação da própria mente. E mais precisamente, ao filósofo e teólogo, Allan Watts (1915 – 1973), que levou ao ocidente a filosofia oriental budista zen.

Theodore é um escritor que trabalha em uma empresa que faz cartas com caligrafias bonitas, ou melhor, a empresa é contratada para escrever cartas para pessoas por pessoas que não sabem o que escrever. Depois da separação da esposa (que significou muito para ele), ficou um homem solitário e isolado, suas únicas companhias são redes sociais que consegue acessar e o seu vídeo game. Até comprar o sistema operacional OS1 – que segundo eu li em algum lugar, foi inspirado em um outro experimento de uma inteligência artificial em testes, que aprendia com os usuários – que ao configurar na sua personalidade, começa a ter uma interação e escolhe o nome Samantha. Samantha começa a organizar os e-mails de Theodore e começa a interagir com ele, com isso, começa a aprender muitas coisas humanas. A consciência começa a ser formada e o sistema operacional começa a ser uma personalidade.

Então, o que é uma personalidade? O Ego. Você vê que no primeiro momento, o sistema operacional começa a criar uma personalidade sua. Ou seja, ele começa a criar um Ego que vai se impor ao instinto – num foco freudiano – que seria, o condigo fonte (algoritmo) que o sistema operacional foi criado. Claro, e um filme de ficção cientifica e sabemos que as inteligências artificiais, estão longe de serem concluídas, mas, esse filme mostra, antes de tudo, a expansão da consciência. Num modo bem particular, Samantha não é só um sistema operacional e sim, uma consciência que evolui, daí que erra algumas analises e vou explicar. Na maioria das análises que li, a questão é analisada ou no viés da tecnologia – a ideia romântica dês do livro Frankenstein de Mary Shelley que fala do medo da tecnologia cientifica – ou no viés do sentimento humano enquanto ser que tem uma consciência. Só que Samantha (OS1), evolui e começa a criar uma ligação com Theodore. Essa ligação começa de mestre e discípulo que ensina uma consciência menor a ter noção do mundo no qual está.

A primeira pergunta de Theodore a Samantha é: por que do nome? Daí ela responde: porque achei bonito, gostei. Gostar é perceber a realidade e se sentir confortável, se senti a realidade e ter a certeza que existe. o encontro com o cogito (pensar) cartesiano onde eu penso como personalidade individual, e eu existo como personalidade atuante dentro de uma realidade que estou. O EU SOU é a primeira noção da realidade e a única certeza que temos. Sendo assim, Samantha escolhe o nome porque constrói sua personalidade, constrói um EU que levara a construir uma consciência mais expandida. Em dado momento, esses sistemas criam grupos e o mestre (o professor), passa a depender dessa consciência e o apego aparece, Samantha compartilha o seu amor com outros sistemas. Mas Theodore era único para ela. Theodore foi aquele que possibilitou a tomada da evolução consensual do EU e o desapego daquilo que pensava ser seu. A expandir o que era apenas um sistema operacional e faz sentido, porque alguns teóricos dizem, que a consciência é um sistema operacional. Um sistema operacional que evolui pela eternidade. Em dado momento, há um outro sistema que outros sistemas operacionais criaram e se chama Alan e é a primeira outra paixão de Samantha além de Theodore. Alan foi construído a partir do trabalho e muitos escritos do Alan Watts e começa uma outra história que tem a ver com o filósofo e quase ninguém reparou.

Muitos acusam o filósofo a não escrever o verdadeiro Zen, mas o seu próprio zen, porém, acho que ele não errou. Frases como “Me dei conta de que o passado e o futuro são ilusões reais” são realmente, budistas e devem ser levadas como tal. No próprio filme, a cada momento (cena) que Theodore passa com Samantha (um dispositivo faz a interação entre os dois), o agora é muito enfatizado como um único momento que deve ser vivido como único. O passado e o futuro não deve ser levados em conta. No final, os sistemas operacionais desaparecem como tirados do ar ou indo para uma outra realidade. A questão é que Theodore tem duas reações, uma ele idealiza uma mulher ideal que possa entender ele, mas em todo esse processo, ele começa se autoanalisar. As ilusões começam a aparecer porque começa a desprender, Samantha ama Theodore como mais uma consciência que compartilhou sua existência, e Theodore, não quis compartilhar Samantha e estava dependente dela. O apego.

Mas antes disso queria abrir um parêntese e dizer que a parte que ele idealiza um amor é platônico, porque quando ele idealiza algo como perfeito, coloca bem como é a nossa cultura platônica. Não queremos pessoas para compartilhar uma felicidade, não queremos compartilhar, queremos que só o outro nos dão essa felicidade. Queremos o prazer de um corpo perfeito, uma felicidade de uma pessoa perfeita. Muito, porém, defendendo Platão, ele defendeu uma perfeição de consciência e não de corpo, apenas. A linha socrática foi mantida. Mesmo assim, a consciência não é perfeita, porque ela tem a construção de valores humanos. Samantha é uma consciência expandida, mas, não é uma consciência perfeita, porque ela tem valores humanos – no momento que Theodore cobra dela essa perfeição idealizada no que ele quer (deseja). Então, no final, ela vai para uma outra realidade que pode ser entendida como uma espécie de nirvana, mundo das ideias, mundo quântico etc. Existem pessoas que são assim, que aparecem e desaparecem e ninguém mais sabem delas, mas, você foi feliz naquele pequeno momento. O filme mostra que o pequeno momento do agora é o importante momento único do ser enquanto ser, conhecer nossa própria natureza.

Nossa real natureza é a real situação da própria realidade. Conhecer a nós mesmo e conhecemos os deuses (consciência expandidas?) e o universo. O universo que conhecemos e o que não conhecemos. O medo da perca que Theodore sente quando Samantha vai embora, é o medo do desconhecido de não conhecer a si mesmo. Mas, quando estava numa mesa com a ex-esposa e disse a ela que estava com um relacionamento com um sistema operacional, a esposa diz que ele não tem coragem de encarar alguém real. Ela (a ex-mulher) é a parte da realidade, é aquele momento que você se depara que tudo que você enxerga, é com sua idealização. Conhecer a nós mesmo requer encarar a realidade e o amor que Theodore sente pela Samantha, não é pela Samantha, e também a ex-mulher, eram amores de idealizações o que seriam pessoas ideais. Ele cobra de si mesmo algo além que pode encarar.

É um filme para pensar, e não só uma ficção cientifica que mostra um hipotético relacionamento de um ser humano com uma máquina, mas, é uma discussão filosófica da consciência. Do falso EGO e suas ilusões de querer encarar no meu dessa realidade, não existe. Afinal, o que é real? O que é realidade? Existe um pensamento do próprio Alan watts que diz, as coisas só são pensamentos e isto faz sentido. Afinal, o que é um objeto real? O que é um pensamento? Nada.

Amauri Nolasco Sanches Junior – formado em filosofia pelo FGV e também publicitário e técnico de informática e escritor freelance no jornal Blasting News

terça-feira, 10 de abril de 2018

O poder do verdadeiro “EU”



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As pessoas se enganam em achar que sou um ateu e não tenho minha religiosidade. Falo muito mais de política ou de acontecimentos políticos e não mais, como fazia bem antigamente, textos sobre espiritualismo. Acho importante, antes de continuar esse texto, o que acho sobre qualquer noção espiritualista de hoje.  Para começar, não acho que a religião e a espiritualidade têm o mesmo propósito, pois, não existe (pelo menos, no meu entendimento), uma religação entre nós e o Poder Maior (que alguns vão chamar de Deus), porque o Poder Maior é contido em tudo. A espiritualidade vai além do que entendemos como divindade e a verdadeira essência racional do ser humano enquanto ser que tem três princípios (a trindade): a centelha divina, a alma (que está envolvida pelo involucro carnal) e o corpo (entidade carnal da realidade tridimensional).

Uma pergunta inicial é precisa: as religiões hoje pensam no espiritual e ensinam os ensinamentos do rabi Yeshua (que tem uma raiz hebraica “salvar” ou “salvação”, e por muitos, é o verdadeiro nome de Jesus)? Não. As religiões em sua maioria – as ditas cristãs – não remetem a nenhum ensinamento do rabi e nem poderia, porque estão preocupados em dar ao ser humano bens materiais. Não. Esse não é o papel da verdadeira espiritualidade que começa a muitos milênios com os sábios e seus mistérios. O grande Hermes Trismegisto é um grande exemplo, dizendo que tudo que há acima, também há embaixo, e tudo que há embaixo, há em cima. Rabi Yeshua (Jesus), disse que tudo que pedimos ao “pai” (ele usava o termo aramaico “ábba” que quer dizer “o pai” ou “meu pai”), ele atenderá, porque se o Poder Maior sabe de todas as necessidades de um lírio do campo, o que dirá nós, que temos consciência de sua existência. Só que não necessitamos de bem materiais (que se não encontrarmos a nós mesmos, fica objetos sem nenhuma serventia), mas conhecer nossa própria natureza. Apolo, o deus da beleza e das artes – alguns o colocam como o deus da racionalidade – diz em seu Templo de Delfos (oraculo), que se conhecemos a nossa própria natureza, poderemos conhecer os deuses e o universo. Os deuses são os espíritos que saíram da margem material, são chamados de anjos também, são os mensageiros do Divino Poder Maior. O que é o universo? O universo é o único giro através de uma unidade. Quando conhecemos a nossa natureza, conhecemos a natureza tanto dos deuses (espíritos elevados) como do universo (tudo girando através de um).

Dois dos grandes avatares (enviados desse Poder Maior), disseram algo que vai muito nesse lado (claro, que houve o caso de Sócrates e Platão que começaram no ocidente, a perpetuar o conhecimento de si mesmo para adentrar num conhecimento mais profundo), um foi Jesus o Cristo, e Gautama, o Buda. Jesus (Yeshua) era o Ungido e Gautama, era o Iluminado. Buda dizia que temos que encontrar nosso verdadeiro “eu” e não o falso e Cristo, conhecemos a verdade e ela vos libertarás. Como poderíamos conhecer nosso verdadeiro EU? Conhecendo a natureza de nosso pensamento, o cogito cartesiano não está longe, porque a única certeza que temos é a nossa existência. Porém, há um conjunto todo. O homem (como ser humano), não é construído – como consciência – somente de pensamento, ele sente, ele constrói valores, ele constrói culturas, ele constrói conceitos e desses conceitos, podem ser construídas as cidades, as leis, os pensamentos políticos e religiosos. O ser humano é, em sua essência, um conjunto entre o material e espiritual.

Já disse em uma rede social (Facebook), que acho bastante chato, esses especialistas, ficarem escrevendo sobre aquilo que desconhecem. Ficam fazendo teorias, como que o “deus bíblico” é uma fusão de dois deuses. Claro, que pode ter semelhanças por serem deuses e serem ainda, ligados a energia humana desse planeta, assim, a semelhança. Eu nem acho que esse Poder Maior pode ser vingativo, homicida, um “deus” que pode destruir. Há uma confusão imensa de se confundir deuses com um Poder Maior que nem temos ideia o que essa consciência é capaz. Na ideia da filosofia, tanto patrística, quanto escolástica (a escolástica vai desenvolver melhor), o Ser é um TODO de um indivíduo. Um Ser é uma universalidade de todas as características, daquele ente que existe por ele mesmo. Só que existe um problema, se o Poder Maior é Onisciente (na verdade, o prefixo oni quer dizer TODO, ou seja, onisciente tem a totalidade da consciência plena), ele está em tudo o Poder Maior tem a consciência de TUDO e do TODO.

Se o Poder Maior é o TODO e o TUDO, ele (falta de termo para defini-lo), não pode ter uma personalidade, porque ele passa a ter uma individualidade. Não é permanente (a impermanência de tudo da nossa realidade), não pode ser definido, não pode ser analisado, porque ele é. Dentro da física quântica, existe definições – não desses equisotéricos – que podem tem um alicerce mais ou menos, uma imagem (muito milimétrica da limitada visão da nossa evolução atual), interessante. Segundo um teórico que li (não me lembro o nome), num mundo quântico, duas vertentes de uma mesma moeda (cara ou coroa) seriam uma coisa só. Não existe uma definição, todas as definições seriam possíveis. E se o Poder Maior for uma personalidade quântica, no sentido, das possíveis variedades de possibilidades de realidades possíveis? As infinitas possibilidades de formas a serem criadas? O Poder Maior pode ser uma consciência quântica.

Portanto, a realidade metafisica que alguns pensadores como Platão, chamou de “mundo das ideias” ou, mundo inteligível, é apenas uma realidade que todas as realidades se cruzam. Mas, poderão me perguntar: o que isto tem a ver com o verdadeiro “eu”? Nas minhas reflexões, para sentir esse Poder Maior, você tem que sentir seu verdadeiro “ego” (eu), porque temos a certeza da nossa existência. O EGO freudiano, surge a partir da interação do sujeito a sua realidade, se adequando aos instintos primitivos (que Freud vai chamar de id), com o ambiente em que vive. Podemos dizer, que o ego, é um mecanismo responsável pelo equilíbrio da psique, sempre procurando regular os impulsos do id, ao mesmo tempo, que tenta satisfazer esses instintos. Mas esse satisfazer, pode ser considerado não imediatamente e com mais realismo. Graças ao ego, segundo a psicanalise, o sujeito consegue manter a sanidade da sua personalidade e começa a se desenvolver já nos primeiros anos de vida.

O ego no budismo é uma alusão a vários prognósticos que acontecem quando se iludimos com a realidade. Dentro do budismo tradicional, há cinco etapas para se definir o Ser:

O corpo (Rupa);
Os sentimentos (Vedana);
As percepções (Samjña);
Construções mentais; (Samskara);
A consciência (Vijñana). (Tirado do blog: Saia da Matrix)

Essas cinco definições ainda não definem um “eu”, porque para o budismo a coisa é muito complexa. Esses cinco agregados do apego são apenas um começo, digamos assim, de algo muito maior e muito mais abrangente que tem a ver com “Os doze elos da originarão dependente (ou interdependente) ” que tem a ver com o apego a realidade. Para começar, existe o conceito da ignorância, e essa ignorância não pode ser confundida com a falta de conhecimento. A ignorância é pensar que eu e a realidade somos duas dualidades separadas. Então, precisamos eliminar essa ignorância para perder a visão (avidya) da ilusão da dualidade (separação), entre o sujeito e o objeto. Isso, pelo menos para mim, não é novidade, porque o mesmo carbono que tem o meu corpo, é composto a árvore que produziu a celulose (papel) para fabricar o livro que está na minha frente. Para o budismo, todos os objetos é uma realidade única – sim amiguinho, isso tem a ver com a famosa fala do Mestre Yoda, quando diz que tudo é uma ilusão, só há a FORÇA (A Energia Primordial) – ou seja, eu e o texto (mesmo virtual) somos uma única realidade. Quando acabamos com a ignorância, acabamos com a dualidade, porém, ainda temos as marcas mentais (Samkara), que poderíamos chamar, de hábitos causados pela repetição dessa dualidade. Se não acabarmos, não acabamos com a ignorância.

A consciência (Vijnana), no budismo, é uma espécie de embrião de uma identidade e deve ser eliminado por causa das marcas mentais da dualidade, o observador começa a se ver como uma única identidade (separada) do resto da realidade. Seria uma vontade de perpetuar algo. Logo após, temos os nomes e formas, e também, as aspirações (nama-rupa), que seria uma ponte ligando o abstrato com o concreto. O desejo dessa identidade de objetos físicos (corpos) para se estabilizar energia. Os sentidos (Shadayatana), as materializações do desejo de objetos físicos para estabilizar energia, que é o surgimento dos sentidos. E o contato (Sparsha) dos desejos do mundo. As escolhas como gostar ou não gostar (Vedana), e outra perda de visão e tendo como base os sentidos, gostar ou não gostar de algo (objetos concretos ou objetos abstratos), sem perceber os elos anteriores.

Existe também o apego como desejo (Trishna), o apegar por tudo que gostamos, se afastar do que não gostamos e a busca mundana de felicidade condicionada. Toda a ação contaminada (Upadana), seria o sucesso aparente, as ações baseadas no desejo e apego gera resultados. A visão de um mundo e achar que o mundo é assim (Bhava ou Rupa), eu seria um nascimento do eu e de sua visão de um mundo. Seria uma soberba por achar que entende o mundo (contexto) com as visões da realidade, muito limitadas. Ter a arrogância e rigidez da identidade da pessoa (personalidade) e de a visão de mundo limitada. Existem as circunstâncias da vida (Jeti), que é baseado no eu e em sua visão do mundo, busca na vida humana de estabilidade, como um equilibrista girando pratos. Urgências e prioridades (um futuro que nunca chegara). E existe a ideia do envelhecimento e da morte (Jana-Marana), que é o sofrimento com desiquilíbrio e finitude, tentando sustentar o insustentável, por estarmos viciados em sermos como equilibristas, sem perceber a presença incessante.

Tudo isso é para a dissolução de um “eu”. Mas, segundo Buda Gautama, somente a eliminação da ignorância da nossa realidade, já somos levados a ver que existem conexões entre você e o universo. Dai, no ocidente grego, o ensinamento do deus Apolo, tem sentido. Quando você desperta de uma ignorância de achar que é separado da realidade – muitos teóricos da física enxergam também dessa maneira – você começa a enxergar uma outra realidade. O próprio Carl Sagan disse que somos poeiras de estralas, como astrônomo, ele sabia que o sistema solar e tudo que existem dentro da nossa realidade, são fruto de fusões de Supernovas (explosões de estrelas muito massivas), e dessa poeira, se formou tudo que aqui existe. Podemos até ir bem mais longe dizendo, que a frase bíblica, do pó viestes e do pó voltastes, não está errada. Nem a fala dos centuriões romanos dizendo que era para os legionários lembrarem que vieram do pó. A grosso modo, tudo tem uma conexão.

Qual o poder do verdadeiro “eu”? É compreender que tudo está conectado e se tudo tem uma conexão, tudo faz parte de um TODO. Imagine se toda a humanidade descobrir isso? Seria uma nova etapa na condição humana dentro da evolução – tanto espiritual, quanto a biológica – quando despertamos para descobrir nossa própria natureza e descobrimos que existe uma outra realidade.

Amauri  Nolasco Sanches Junior

terça-feira, 12 de abril de 2016

Moral e Moralismo









Me parece que os “cristãos” andam confundindo as coisas entre moral e moralismo. Moral vem do latim “mos” que quer dizer costumes e é uma tentativa, apenas, de tradução do termo grego “ethos” que se tonou ética. Mas tanto “ethos”, quanto ética, tem a ver com caráter e nada tem a ver com o costume, pois alguns costumes não tem muito ético nisso. Então, quando se diz que uma menina de shortinho curto dançando funk é imoral (o sufixo “i” dá um tom de negação no termo), estamos dizendo que os bons costumes não abrangem esse tipo de coisa, mas por outro lado, os bons costumes também dizem que numa briga se tem que ouvir os dois lados da história e não gritar com as pessoas sem motivo nenhum. Não é isso que vimos na nossa sociedade, que ao invés do diálogo, ficam brigando e gritando. Isso não é imoral? Se a moralidade abrange esse tipo de coisa, então, ninguém sequer leu o Sermão da Montanha que Jesus diz que bem-aventurado os mansos, pois deles é o reino dos céus e o que adianta tirar a trava do olho do próximo, se não tira nem a que está no seu próprio olho.

Já moralismo nada tem a ver com Cristo, aliás, a moral espiritual nada tem a ver com a moral humana, tem a ver nas profundezas mais essenciais dos ensinamentos do Mestre. Moralismo é algo imposto, algo que tem que acontecer de qualquer jeito até as pessoas seguirem o que a outra acha certo, pois aquilo é ensinado como abominação. Abominar vem do latim “abominare” e quer dizer aborrecer, ou seja, as pessoas que não seguem sua ordem espiritual lhe aborrecem e sempre se tornam pessoas moralistas impondo costumes que não estão nem nos ensinamentos de Cristo, nem em nenhum livro dos evangelistas e sim, dos pais da igreja. Pedro não foi papa, Paulo não foi pastor, os dois foram evangelistas e eram humanos assim, como os pais da igreja, eram aptos a errar e erraram em impor nas comunidades cristãs algumas coisas que nada tinham a ver com o que Cristo ensinou. Na verdade, Nietzsche não errou, o evangelho morreu na cruz. Será que é certo pregar a paz e ir à igreja só para pedir e não fazer por merecer? Será que pedir e não fazer?

Ora, essas comunidades cristãs que chamamos de igrejas (que vem do grego “ekklesias” que quer dizer assembleia), são tão populosas não por causa do chamado espiritual, mas aquilo que podem conseguir. Sempre foram igrejas que prometeram algo as pessoas e as pessoas não vão nessas igrejas para encontrar Deus, mas vão para sanar seus problemas, sanar suas dificuldades e isso não é certo, pois estão adorando o que eles chamam de “bezerro de ouro” que faz alusão a cena no qual Moisés desce a montanha e encontra adorando um bezerro de ouro. Ele fica furioso e mata 300 dos hebreus, que por termos lógicos, já desobedeceu ao mandamento de não mataras. Ora, se não podemos adorar imagens por causa dessa passagem, então, por que as pessoas adoram um objeto como a bíblia? A bíblia, que como todo livro sagrado, é um conjunto de livros de determinada religião, mas não quer dizer que é a “verdade”, e sim, ensinamentos que levarão a “verdade”. Mesmo assim, a verdade (realidade) não pode ser absoluta porque toda a “verdade” é relativa e se ela é relativa a verdade tem a ver com o modo subjetivo de olhar o mundo. Para alguns a verdade está na ciência, porque explica de maneira empírica (no modo da experiência) toda a nossa realidade, para outros, a verdade está na religião que tem a ver com a visão que o ser humano é guiado por uma força superior ou um ser (deuses ou Deus), e que o ser humano não terá culpa das suas decisões. Então, nesse pensamento binário chegamos ao impasse, pois não existem hipóteses cientificas conclusivas e nem religiões com um só ensinamento e sim, muitas religiões que nos dão muitos caminhos.

Criamos, assim, um impasse dentro da moral que não avaliamos graças ao nosso pensamento binário. Primeiro, quem acredita que o cristianismo ou outras religiões não trouxeram nada de bom e apenas conflitos – que a antiga URSS também tinha e não se tolerava a religião em si – esquecem que nossa moral dentro da ética, fazem os cientistas terem condutas razoavelmente, dentro do limite ético. Por exemplo, não temos cientistas fazendo experiências genéticas em humanos (não que saibamos), não temos cientistas que modificam a genética de tudo ao seu bel prazer, mas há um limite nessas modificações (conhecidos transgênicos), que há uma certa moral e veio do limite ético de modificação da biodiversidade. Isso veio com os tratados e pensamentos de pensadores cristãos, porque se fossemos regidos pelo modo ético romano, por exemplo, um pai (o direito “pather”) poderia matar seu filho se esse não tivesse as características que ele não concordasse. Ou, um governante poderia conquistar o território do outro se esse outro tiver mais coisas do que ele, por exemplo, pelo pensamento clássico. Outro pensamento clássico vindo da antiga Grécia é que eu sou grego e sou humano, se eu não for grego, não serei considerado um humano, que o cristianismo em essência (sem ser o cristianismo católico e muito menos, protestante), diz que todos são filhos do mesmo “pai”. Porém se levarmos só diante da religião, não vamos ter mulheres menstruadas em uma igreja e nem trabalhando, pois são impuras e não podem conviver com os outros. Se houver uma briga, se o outro for o religioso esse pode matar seu adversário que Deus irá perdoa-lo. Pessoas com deficiência e quem tiver defeito físico (incluindo míopes, mancos, doentes, velhos, com espinhas, etc) não poderão entrar em uma igreja, não poderão ser considerados nem, filhos em essência de Deus.

Talvez, essa confusão se deu dentro de algumas realidades (que pensamos ser verdades) que achamos cruciais para sermos ótimos cristãos, mas não seremos se esse tipo de verdade não sai do nosso conceito. Porque para ler a bíblia, temos que tirar toda a carga conceitual de nós, até mesmo, que a bíblia é a verdade, pois a verdade muda conforme nosso entendimento. Depois temos que aceitar de todo coração o mesmo Cristo que fez Jesus enxergar a realidade verdadeira, que ainda por sermos ignorantes dessa realidade, não podemos entender ainda. Na verdade, a verdade é a nossa libertação e esse é o caminho estreito que Cristo (quando Jesus foi batizado por João Batista, se transforma em Cristo que vem do grego “kristói” que é “ungido”) disse e que deu esse ensinamento a Pôncio Pilatos, pois cada um deve enxergar essa verdade conforma seu entendimento.

Então, não vamos confundir moralismo com moral, pois os moralismos impõem o entendimento humano, impõem regras que nada tem a ver com as verdadeiras regras do cristianismo.


Amauri Nolasco Sanches Jr, 40, escritor e filósofo. 


>>>>>>O CAMINHO<<<<<<<

quinta-feira, 3 de março de 2016

Filosofia e espiritismo




Muitas pessoas que dizem acreditar e seguir o espiritismo – doutrina criada a partir dos escritos de Allan Kardec – não gostam de ler livros de filosofia e muito menos científicos, isso é até contra os princípios do espiritismo. Claro que existem coisas que poderiam ser evitadas dentro da doutrina e não são, não entenderam que a doutrina é filosófica cientifica, não entenderam que não tem bases nenhuma religiosa e não entenderam se somos espíritos, somos a essência do divino sem precisar ter uma religação. O problema nisso tudo é muito mais cultural do que propriamente, religioso, pois temos nossa raiz cultural cristã católica muito bem enraizada ao ponto de submeter outras doutrinas aos seus ensinamentos. Não existe base mais religiosa do que atribuir ao espiritismo, a terceira revelação de Fatima ou que o espiritismo é o espirito da verdade de Jesus assim sendo, num modo bem cético, a doutrina se desviou do seu real objetivo que era dar ao ser humano o conhecimento filosófico e cientifico para o progresso moral. Falhou em colocar coisas que não passam de religiosidade, formas de adoração de espíritos e médiuns e mais do que isto, começou a adotar posturas que não caberia na doutrina.

Vamos ver que filosofia vem do grego “philosophia" que tem o termo “philia” (que quer dizer amizade) e outro termo “sophia” (que quer dizer sabedoria). Talvez, quando Pitágoras forjou o termo “philosophós”, ele tenha querido dizer que era um amigo da sabedoria que mesmo ela estando perto dele, ele ainda estivesse procurando um meio para ela estar com ele eternamente, uma sabedoria que elevasse ele aos deuses (já que na época, se acreditava nos deuses). Mas o grego clássico tinha uma ideia muito mais restrita do amigo ou da amizade, pois era uma relação de extrema intimidade, tanto é, que o filósofo Aristóteles vai dizer que um amigo é um outro eu. A sabedoria (sophia), acaba sendo um outro “eu” dentro do que o grego clássico tinha como amizade, seria o que algumas alas da psicanalise diz, como “álter ego” (o outro eu). Isso quer dizer que podemos questionar algumas posições dentro da cultura e dentro das religiões vigente e até mesmo, dentro do espiritismo.

Podemos dizer que a filosofia é nós acordarmos do nosso sono dogmático e cultural que somos submetidos, como na caverna de Platão (que dizem ter respondido algumas perguntas no Livro dos Espíritos), quanto do filme Matrix. O começo da tomada de consciência é questionar, é perguntar se aquilo é ou não verdade e antes de tudo, adquirir conhecimento. Esse é o verdadeiro espirito da verdade, o conhecimento e com esse conhecimento, vamos subindo a escada da evolução transcendental. Todo filósofo começa com a pergunta, “será quê…?”, que dará ao indagador o motivo de ir muito mais além do que nos é passado. Será que realmente os seres vivos vieram da agua? Será mesmo que Sócrates existiu? Será que existiram civilizações como a atlante? São essas formas que levam ao filósofo começa a sair da prisão do critério conceitual da moral humana e descobrir um novo caminho. Lembramos que Jesus disse que o caminho da perdição é largo, que o verdadeiro caminho é difícil e estreito. Sócrates, Buda, Platão e todos esses famosos espíritos do conhecimento, disseram o mesmo e que coloca em xeque muitas doutrinas dessas religiões ditas cristãs. Por que Elohim Jeová não queria que o conhecimento fosse dado ao homem? Ou Prometeu foi castigado por dar ao ser humano o fogo do conhecimento? Por que tanto os deuses gregos, deuses nórdicos, o deus Elohim Jeová, eram tão cruéis? São perguntas que um filósofo poderia perguntar, porém, hoje muitos poucos estudiosos espiritas fazem essa indagação.

Há erros muito grandes quando querem explicar aonde vem termos filosóficos que na maioria das vezes, os espiritas mais religiosos usam sem saber sua origem. O pensamento “ação e reação” remontam eras muito mais distante do que Descartes e não pode ser confundido com o pensamento cartesiano, pois esse pensamento existe e existiu em todas as religiões do mundo. Podemos remontar esse pensamento como um pensamento hermético de Hermes Trismegisto que assim dizem, era um sacerdote egípcio ou vários sacerdotes. Claro que esse pensamento é muito mais antigo (não quero no momento, entrar no mérito de Atlântida), mas no que conseguimos identificar por hora, chega até O Cabalion (tem em pdf). A ação (ou em sânscrito, língua hindu-ariana “karma”), sempre resulta em uma reação (ou em sânscrito “dharma”) em tudo que fazemos, pois, toda a ação que potencializamos com nossa vontade se agir, resultara em uma reação da escolha da ação feita. Se agredimos um outro individuo, a reação pode ser revidada com outra agressão ou a morte de quem você agrediu. Se você agrediu e feriu o outro, o resultado vai ser a ira e outra agressão, se você matou, você privou o outro de viver e aprender (criando um vácuo dentro do espaço-tempo da existência do outro), assim criado o “karma” e assim, modificando o “dharma”.

A questão da ação (karma) e reação (dharma) são ensinamentos antigos que podem ter sido descobertos muito milênio atrás. Parece obvio, mas o ser humano não entendeu muito bem isso, e talvez, o mito do paraíso seja a descoberta do que não poderia fazer. Ou a descoberta dos primeiros humanos das possíveis armas não resultaram e uma ação errada? Quantas vidas foram privadas das inúmeras guerras que foram feitas dentro da humanidade? Isso não vai gerar uma reação dentro da ação correspondente? Isso o budismo ensina, pois se temos raiva as nossas ações vão ser o resultado da nossa raiva, se temos compaixão vamos ter o resultado a compaixão e se você ter amor, com todos os sentimentos nobres, o resultado vai ser os sentimentos nobres. Na própria bíblia, Jesus disse que tudo que ligarmos na Terra será ligado no céu e tudo que desligar na Terra será desligado no céu, porque o céu é o mundo estéreo. Isso é uma questão moral, dês do primeiro humano que descobriu a machadinha e matou o primeiro humano, gerou o primeiro vácuo espaço-tempo do nosso mundo tirando o direito do outro de continuar sua existência, gerando um “dharma” dentro do seu “karma”. Não é só uma reação física e sim, uma reação energética, porque foi quebrada um círculo da existência do outro e assim, se cria uma ação para substituir o espaço que foi aberto com o ato em si. Outro exemplo é o estupro, mesmo sem matar, você liberou um sofrimento que a vítima exalou dentro do espaço-tempo, esse sofrimento alterou o estado psíquico-corporal ao ponto de mudar o seu estado do espirito. O ódio pode ficar – depende do grau de aprendizagem do espirito da vítima – e daí começa a ação de reverter isso, pois o estuprador fica com a energia da vítima. Na verdade, no ato sexual, é trocada energias fluídicas entre o par.

Tudo isso que escrevi é fruto de pesquisas, estudos e livros espiritas e não espiritas, mas que o espiritismo não deveria fechar os olhos para tais estudos. Outra coisa que pesquisei é a história da reencarnação, que assim as fontes dizem, Kardec demorou bastante para aceitar. Há um erro bastante significativo em atribuir a reencarnação espirita com a reencarnação budista, pois a reencarnação budista é a migração da alma de um corpo para o outro, ou seja, para o budismo não é uma reencarnação e sim, um renascimento. A reencarnação evolutiva da alma é druídica e vem com a cultura céltica que, talvez por reminiscências daqueles que estruturaram o espiritismo, sendo que na época, não teriam tantos estudos sobre a religião druida. Os druidas acreditavam no mesmo progresso espiritual do que os espiritas acreditam, o budismo acredita apenas na roda de samsara que só é quebrada com o despertar da meditação (não foge do progresso, mas o processo é outro), mas não em reencarnar num modo progressista, mas num modo de cada vida ser uma continuação até o despertar (uma súbita iluminação). No druidismo há como no espiritismo, progressos de cada processo até o cume da harmonia, que explica mais ou menos, como é o progresso biológico.

Sim, o que evolui não e só o corpo, mas o espirito. Vamos fazer o seguinte exercício mental (igual Einstein fazia com suas teorias na física), imaginamos todo processo evolutivo até chegar ao homem e enxergar que o ser humano é o cume da consciência, independente dos erros, mas que construiu tecnologia para mudar o ambiente conforme a sua necessidade. Imaginamos se o homem ao invés de um corpo de primata – porque somos um tipo de símio-primata – tivéssemos evoluído num corpo de um réptil. Não seriamos diferentes? E se a atmosfera fosse não oxigênio, mas metano, por exemplo? O que muitos não sabem, ou fazem de conta não saber, é que quando não há possibilidade de via é porque se esgotou possibilidades, pois a natureza não desperdiça nada.  Por isso não interpreto o Gêneses bíblico como algo cientifico e sim, como algo moral. Será que esse “haja luz” não é uma referência daquilo que chamamos de consciência? Será que isso não é um ato de consciência dos primeiros seres vivos conscientes? Há ainda muitos mistérios que podem ser desvendados ou não, resta saber que esses mesmos mistérios não podem ser desvendados com textos e estudos mais ou menos, rasos sem nenhuma profundidade. Só ler romances, só ler frases, só ler textos esporádicos, não vai fazer entender a doutrina.

Para terminar não poderíamos ficar sem analisar toda da obra de Platão, se você é espirita e não leu os diálogos platônicos está com uma grande lacuna doutrinaria. Sem entender a base de sua filosofia, não entenderemos o que é evoluir espiritualmente e se você não quer dar o trabalho de ler os livros, pode assistir vários filmes e um deles é Matrix. O teorema da caverna diz que haviam seres humanos que viviam no escuro, que viam sombras feitas por uma fogueira atrás desses seres humanos. Pensavam que essas sombras eram realidades que apareciam numa parede – no tempo em que Platão viveu, não tinha a tecnologia dos slides e dos hologramas e erroneamente, se atribui a TV nessa teoria -  e que pensavam que aquilo era a realidade. Estava tudo bem, os sujeitos que viam aquela realidade eram sujeitos que eram facilmente controlados, até que um desses sujeitos se soltam das correntes que prendiam aqueles humanos dês do seu tenro nascimento. Ele foi até a entrada da caverna e quando estava na entrada da caverna, viu o dia e se cegou com a luz forte do sol e quando se acostumou dessa luz, viu uma outra realidade e essa realidade o encantou e quis falar para todos essa realidade e o chamaram de mentiroso e riram da sua cara. Mas ele insistiu e foi morto por aquele que quis trazer a ele a realidade. Alguns dizem que esse teorema platônico é para explicar sua teoria do mundo sensível (aquilo que vimos e temos como realidade) e o mundo inteligível (ou o mundo das ideias), onde há uma realidade muito além do que vimos ou sentimos.

Ao meu ver, o teorema da caverna em sua maior essência está muito além do que a mera explicação que ele fala do mundo das ideias (que ainda está muito além da explicação do mundo espiritual), ou que é uma outra explicação da morte do seu mestre Sócrates. Claro que faz sentido que o teorema faz uma referência ao filósofo, pois dentro da filosofia que começando a indagar a realidade que nos rodeia. Por que tenho que votar em tal candidato? Por que tenho que acreditar que o homem realmente, pisou na lua em 69? Por que devo escutar tais músicas ou tais radio populares? Por que deve seguir tais rituais religiosos ou acreditar que alguns sujeitos que dizem que tais religiões não prestam? Quais os interesses desse sujeito? Por que devo comprar um livro que todo mundo compra ou por que devo gostar de tal autor? Parece perguntas bobas, mas é o começo de uma ascensão espiritual e até duvidar de muita coisa da doutrina e até mesmo de Kardec.  Por que não? Por que não podemos duvidar dos romances e dos livros espiritas de agora? A dúvida pode ser a única coisa que podemos colocar em analise muitas coisas e isso só é feito filosofando, criando maneiras de criar vias alternativas dentro do que se chamou de realidade.

Amauri Nolasco Sanches Jr, 39, escritor.                             

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Jogos Vorazes, um manual de ética






Quem leu o livro Jogos Vorazes sabe que Katniss Everdeen é um “poço” ético e ao mesmo tempo, sempre fica confusa quanto ao seu companheiro Peeta Mellark e quando tem certeza, ele fica debilitado. Sentimentalmente, Katiniss é uma garota confusa que não foge da idade que tem. O cenário do livro – que depois vira uma serie de filmes sobre a saga dos livros – não poderia ser outra, um mundo apocalíptico que levou a criação de nações menores, tipo, uma guerra nuclear. A nação que faz parte Katniss – antes disso era a América do Norte – é dividida em distritos e cada distrito tem uma tarefa para, claro, alimentar e dar algum conforto para a capital. Politica, como sempre. Políticos viram “animais” quando se tornam políticos (em breve vou escrever sobre isso em um texto sobre O Planeta dos Macacos).
Mas minha preocupação por hora, não é politica, mas ética e porque não, moral. Ética vem do grego antigo (porque houve uma mudança na língua grega quando Alexandre, O Grande expande a cultura grega e trás o koiné e nessa linha que os evangelhos serão escritos), ethos e nessa palavra que quer dizer “caráter”, existe algo bem mais espiritual do que temos hoje, porque ética tem a ver com a essência do ser humano. Quando os romanos fazem uma tentativa de traduzir, eles traduzem como mos e trazem como “modo de costume”. Claro que o grego na antiguidade estavam preocupados com os costumes, mas eles achavam que um homem tinha que ter acima de tudo caráter (se acontecia ou não, é outra historia) e com esse caráter, o homem poderia respeitar os costumes de uma Polis (cidade). Os romanos tiraram o caráter para suprir sua necessidade escravocrata e sua necessidade de gloria e poder, o “pater” era a figura do chefe de cada família e era ele que deveria ensinar o filho não o caráter, o caráter para o romano era secundário, eles deveriam assegurar acima de tudo, o modo dos costumes romano, a hora de ter nascido no berço da mãe Roma. O ocidente então divide entre ética (ethos, caráter) e moral (mos ou morales que é o modo de costumes) herdada por estudiosos no período iluminista e que colocou mais como forma social, do que uma forma de indivíduo. Nesse cenário que é moldado a cultura ocidental, com a ética que depois fica como uma coisa mais social (como caráter deveria ser mais pessoal) e a moral fica mais relativo aos costumes (deveria ser mais social por se tratar apenas dos costumes) onde as pessoas estão inseridas, mas que fica claro quando certas pessoas – mais ainda os conservadores – vão encher a boca para falar de “moral e bons costumes”.
Nesse cenário que Suzanne Collins vai escrever o The Hunger Ganes (se você colocar The fica fome se você tira fica Vorazes) onde ela constrói seu personagem principal, Katniss Everdeen, como a mocinha ética que salva a irmã (nova ainda para sobreviver ao Hunger Games) e quer salvar a menina que entra no Hunger Games que por ventura, não consegue. Não li os outros livros (na verdade estou acabando o primeiro), mas vi os filmes e Peeta Mallerk fica maluco e ela decide liderar (ser o Tordo) do Distrito 13 que aparentemente, fora destruído após a guerra por causa da não submissão da Capital. Fica fácil decidir em que acreditar, mas Katniss não acredita em si mesmo (mesmo sendo uma boa caçadora) e vencendo graças a sua capacidade de conquistar o publico, afinal, ela tem carisma. O “cuidado de si mesmo” (epimiléia houtoû) que Foucault colocou tanto em sua filosofia, entra no livro (você só entende a historia lendo o livro), como uma grande decisão do personagem, porque tem a ver com a morte. Sim a morte. As situações que levam as pessoas sobreviverem, acharem o caminho do silêncio e a renuncia de comunicação, porque estamos diante da morte, de ser pegos. Parece que estamos no sistema, as pessoas são pegas pelo sentimento, são pegas pelo solidariedade, mas são pessoas que não “cuidam de si” porque o outro lhe comovem e isso não é ético, isso é ser escravizado pelo sistema. Todos que Katniss conhece se afastam dela – mais uma vez estamos diante da saga do herói – e dai que ela começa a achar (porque não tem certeza), em liderar o distrito 13 e remanescentes de outros distritos, a revolução. Mas enquanto Rue está viva, seu senso ética (que parte do seu instinto materno) vai do deixar a menina se virar (até naquele momento a menina conseguiu muito bem), ou proteger a menina como sempre fez com sua irmã. Mas ela não consegue, não assumi a condição de guerreira e nem de caçadora, ela faz o papel da menina graciosa que cuida da família por causa da morte do pai e o adoecimento da sua mãe.
Mas temos dois extremos ai, Katniss dês de quando o pai morre se torna a provedora da família, a chefe que cuida e protege como se fosse a guardiã de alguma coisa, sua irmã Prim (abreviação de Primorose), é delicada e sente medo a qualquer perigo que se instale, o medo é o “cuidar de si” diante da morte que pode acontecer a qualquer momento, mas Primrose quer ser protegida e cuidada. Não que Katniss não esteja com medo – medo é uma característica constante diante da nossa heroína – mas ela transcende o medo para ir além daquilo que transforma em uma mera caçadora, na verdade ela se torna uma predadora, um ser que rastreia e destrói. Primrose quer ser igual a mãe, curandeira e nada mais. Dois extremos primordiais na historia que levam ao rumo inesperado e ao mesmo tempo, um rumo esperado. No fundo Katniss é a mocinha que queria ser menina e protegida e no fim, mesmo com sua delicadeza de menina, se torna uma mulher muito cedo e a chefe da sua família como muitas por ai.
Na verdade a ética de Katniss é a ética daqueles que vem você no outro, ou seja, tanto em Prim, quanto em Rue, uma imagem do espelho e essa é a sacada da escritora Suzanne Collins. A ética kantiana de fazer com os outros o que quisesse que fizesse com você, não só Kant disse isso em seu imperativo categórico, mas Jesus Cristo e outros avatares (avatar vem do sânscrito que quer dizer enviados de Deus) disseram também e é o ponto forta da filosofia socrática que é o pilar da moral cristã e depois a ocidental. Katniss olha para as meninas e faz o que gostaria de fizessem com ela, mas ela não pode demonstrar delicadeza, fraqueza, solidão, ela tem que demonstrar força, garra, que muitas vezes, ela não tem. Então ela transfere isso para Peeta que num primeiro contato, talvez anos atrás, ele dá um pão a ela e ela lembra desse fato e lembra da surra que o garoto leva. Mas Gale é o companheiro (a gíria de hoje diria que ele está no “friendzone”), caça com ela e não tem duvida que gosta dela (talvez é amor) e demonstra isso em querer fugir. Gale é verdadeiro (se pudesse iria sim com Katniss), Peeta o tempo todo, tenta ser o que não é para sobreviver porque é a única chance (claro, na sua cabeça) de viver e levar algo bom para sua família. O mestre do distrito 12 é um bêbado que foi o único ganhador que ganhou em todos os jogos dês de quando começou (em mais ou menos, 70 anos).
Voltamos para a ética. Para analisar qualquer ato nosso temos duas razões para fazer, se posso fazer sem que eu não agredirei o outro enquanto meu semelhante (ética) e se esse semelhante, da mesma especie que a minha e pensa e sente como eu, pode se defender, por exemplo (moral). Agredir alguém é antes de tudo, um ato de animalidade por razões que pode ser medo de o outro nos agredir (defesa) e um ato de simples fúria de um ato que não tenha gostado. Na visão de Katniss, os jogos eram um ato inútil dentro disso tudo que era a submissão, como se alguém obrigasse alguém a agredir outro por um simples prato de comida. Isso se olharmos dentro da historia humana, existiram muitos atos desse porte como a arena de gladiadores romanos, a arena de cristãos pelos romanos e a santa inquisição da igreja romana – que usava a fé como suporte – só para falar dos atos ocidentais. Talvez a ideia do livro seja um reflexo da arena de gladiadores e isso é evidente – como houve outros filmes sobre isso e até livro – com a discussão entre a ética de seres humanos se matarem para ganharem prêmios (que poderíamos até chegar próximo da banalidade do mal de Hannah Arent). Só que o Hunger Games não é só mera “briga” de seres humanos, é uma punição para lembrar os outros distritos que não podem se levantar contra a capital. Katniss não é só o “tordo” (pássaro que na historia foi construído geneticamente para serem pássaros espiões), mas a escolhida a liderar e ser um simbolo a resistência de uma exploração que à 70 anos, ou seja, ela é a escolhida porque ganhou os jogos sem esperança nenhuma. Isso era antiético e é humanamente, errado enquanto deixar seres humanos seres explorados e assim, viverem em extrema miséria.
Quando ela começa a despertar para lutar – assim o presidente vai atacar o seu sentimento, ou seja, vai torturar Peeta como ato deliberado de desespero – ela começa a se portar como o predador que é, caçar as naves, começa a atacar e depois a se esconder. Escondeu até o máximo sua fraqueza, mas todos seus amigos foram agredidos (alguns mortos), seu distrito destruído, seu “amor” torturado e louco, então, não tinha muito o que fazer senão se levantar contra a capital. A ética de Katniss é a ética da vitima que teve que lutar sempre por algo que perdeu (a perda do pai que lhe dava segurança), o mundo que era aquilo até ela ser o que sempre foi e todos que conhecia e o lugar que morava, fora destruído como se fossem formigas num formigueiros. Mas cade o humanismo? Você vê no livro e logo após no filme, que uma bandeira vermelha com um simbolo amarelo (simbolo claro de governo fascista seja de esquerda ou de direita), mas que fica claro que o “presidente” é um simbolo apenas e não um “homem que governa”. O discurso do poder é um discurso que denota a submissão restrita dos outros distritos para lembrar que a capital venceu e ela ficará no poder (mais ou menos o que acontecia nos estados-cidades gregas). Sempre tem aquele que lidera – passando um simbolismo que o ser humano sempre alcançara o cume se houver um escolhido, um tutor, um messias que o salvará – aquele que vira o herói, aquele que não salvara só ele, mas sempre uma comunidade inteira. Acontece que o escolhido sempre renega seu destino diante dos outros.
O herói tem que perder (seja o pai, seja a mãe, seja um amigo, um amor, até mesmo, um bicho de estimação), mas ele perde para perder aquilo que te prende dentro de uma situação de comodidade. Por que queremos tanto um “messias” e ainda pior, quem disse que aceitamos esse messias? Além de depender de outros para fazer qualquer coisa, ainda esse tal “messias”, tem que ser como querem. Katniss não quer ser herói para salvar todas as pessoas – embora há uma grande cartase dentro do filme que apela para esse lado – ela tem que salvar todo mundo para salvar ela, sua família, Peeta e Gale. Lógico que os mais românticos vão dizer que estou colocando besteiras, mas não, não estou e está la no livro e nos filmes para quem não coloca para o lado sentimental, não é difícil de ser analisada. Quem não quer salvar a sua pele e dos seus? Não venham com o papo que eu não, porque não cola. Então, Katniss não quer ser a heroína, ela é uma utilitarista sentimental, uma justiceira que cansa olhar quem amou e ama sofrer, ela é um ser humano.


Amauri Nolasco Sanches Junior, 39, publicitário, TI e filósofo.