segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Jogos Vorazes, um manual de ética






Quem leu o livro Jogos Vorazes sabe que Katniss Everdeen é um “poço” ético e ao mesmo tempo, sempre fica confusa quanto ao seu companheiro Peeta Mellark e quando tem certeza, ele fica debilitado. Sentimentalmente, Katiniss é uma garota confusa que não foge da idade que tem. O cenário do livro – que depois vira uma serie de filmes sobre a saga dos livros – não poderia ser outra, um mundo apocalíptico que levou a criação de nações menores, tipo, uma guerra nuclear. A nação que faz parte Katniss – antes disso era a América do Norte – é dividida em distritos e cada distrito tem uma tarefa para, claro, alimentar e dar algum conforto para a capital. Politica, como sempre. Políticos viram “animais” quando se tornam políticos (em breve vou escrever sobre isso em um texto sobre O Planeta dos Macacos).
Mas minha preocupação por hora, não é politica, mas ética e porque não, moral. Ética vem do grego antigo (porque houve uma mudança na língua grega quando Alexandre, O Grande expande a cultura grega e trás o koiné e nessa linha que os evangelhos serão escritos), ethos e nessa palavra que quer dizer “caráter”, existe algo bem mais espiritual do que temos hoje, porque ética tem a ver com a essência do ser humano. Quando os romanos fazem uma tentativa de traduzir, eles traduzem como mos e trazem como “modo de costume”. Claro que o grego na antiguidade estavam preocupados com os costumes, mas eles achavam que um homem tinha que ter acima de tudo caráter (se acontecia ou não, é outra historia) e com esse caráter, o homem poderia respeitar os costumes de uma Polis (cidade). Os romanos tiraram o caráter para suprir sua necessidade escravocrata e sua necessidade de gloria e poder, o “pater” era a figura do chefe de cada família e era ele que deveria ensinar o filho não o caráter, o caráter para o romano era secundário, eles deveriam assegurar acima de tudo, o modo dos costumes romano, a hora de ter nascido no berço da mãe Roma. O ocidente então divide entre ética (ethos, caráter) e moral (mos ou morales que é o modo de costumes) herdada por estudiosos no período iluminista e que colocou mais como forma social, do que uma forma de indivíduo. Nesse cenário que é moldado a cultura ocidental, com a ética que depois fica como uma coisa mais social (como caráter deveria ser mais pessoal) e a moral fica mais relativo aos costumes (deveria ser mais social por se tratar apenas dos costumes) onde as pessoas estão inseridas, mas que fica claro quando certas pessoas – mais ainda os conservadores – vão encher a boca para falar de “moral e bons costumes”.
Nesse cenário que Suzanne Collins vai escrever o The Hunger Ganes (se você colocar The fica fome se você tira fica Vorazes) onde ela constrói seu personagem principal, Katniss Everdeen, como a mocinha ética que salva a irmã (nova ainda para sobreviver ao Hunger Games) e quer salvar a menina que entra no Hunger Games que por ventura, não consegue. Não li os outros livros (na verdade estou acabando o primeiro), mas vi os filmes e Peeta Mallerk fica maluco e ela decide liderar (ser o Tordo) do Distrito 13 que aparentemente, fora destruído após a guerra por causa da não submissão da Capital. Fica fácil decidir em que acreditar, mas Katniss não acredita em si mesmo (mesmo sendo uma boa caçadora) e vencendo graças a sua capacidade de conquistar o publico, afinal, ela tem carisma. O “cuidado de si mesmo” (epimiléia houtoû) que Foucault colocou tanto em sua filosofia, entra no livro (você só entende a historia lendo o livro), como uma grande decisão do personagem, porque tem a ver com a morte. Sim a morte. As situações que levam as pessoas sobreviverem, acharem o caminho do silêncio e a renuncia de comunicação, porque estamos diante da morte, de ser pegos. Parece que estamos no sistema, as pessoas são pegas pelo sentimento, são pegas pelo solidariedade, mas são pessoas que não “cuidam de si” porque o outro lhe comovem e isso não é ético, isso é ser escravizado pelo sistema. Todos que Katniss conhece se afastam dela – mais uma vez estamos diante da saga do herói – e dai que ela começa a achar (porque não tem certeza), em liderar o distrito 13 e remanescentes de outros distritos, a revolução. Mas enquanto Rue está viva, seu senso ética (que parte do seu instinto materno) vai do deixar a menina se virar (até naquele momento a menina conseguiu muito bem), ou proteger a menina como sempre fez com sua irmã. Mas ela não consegue, não assumi a condição de guerreira e nem de caçadora, ela faz o papel da menina graciosa que cuida da família por causa da morte do pai e o adoecimento da sua mãe.
Mas temos dois extremos ai, Katniss dês de quando o pai morre se torna a provedora da família, a chefe que cuida e protege como se fosse a guardiã de alguma coisa, sua irmã Prim (abreviação de Primorose), é delicada e sente medo a qualquer perigo que se instale, o medo é o “cuidar de si” diante da morte que pode acontecer a qualquer momento, mas Primrose quer ser protegida e cuidada. Não que Katniss não esteja com medo – medo é uma característica constante diante da nossa heroína – mas ela transcende o medo para ir além daquilo que transforma em uma mera caçadora, na verdade ela se torna uma predadora, um ser que rastreia e destrói. Primrose quer ser igual a mãe, curandeira e nada mais. Dois extremos primordiais na historia que levam ao rumo inesperado e ao mesmo tempo, um rumo esperado. No fundo Katniss é a mocinha que queria ser menina e protegida e no fim, mesmo com sua delicadeza de menina, se torna uma mulher muito cedo e a chefe da sua família como muitas por ai.
Na verdade a ética de Katniss é a ética daqueles que vem você no outro, ou seja, tanto em Prim, quanto em Rue, uma imagem do espelho e essa é a sacada da escritora Suzanne Collins. A ética kantiana de fazer com os outros o que quisesse que fizesse com você, não só Kant disse isso em seu imperativo categórico, mas Jesus Cristo e outros avatares (avatar vem do sânscrito que quer dizer enviados de Deus) disseram também e é o ponto forta da filosofia socrática que é o pilar da moral cristã e depois a ocidental. Katniss olha para as meninas e faz o que gostaria de fizessem com ela, mas ela não pode demonstrar delicadeza, fraqueza, solidão, ela tem que demonstrar força, garra, que muitas vezes, ela não tem. Então ela transfere isso para Peeta que num primeiro contato, talvez anos atrás, ele dá um pão a ela e ela lembra desse fato e lembra da surra que o garoto leva. Mas Gale é o companheiro (a gíria de hoje diria que ele está no “friendzone”), caça com ela e não tem duvida que gosta dela (talvez é amor) e demonstra isso em querer fugir. Gale é verdadeiro (se pudesse iria sim com Katniss), Peeta o tempo todo, tenta ser o que não é para sobreviver porque é a única chance (claro, na sua cabeça) de viver e levar algo bom para sua família. O mestre do distrito 12 é um bêbado que foi o único ganhador que ganhou em todos os jogos dês de quando começou (em mais ou menos, 70 anos).
Voltamos para a ética. Para analisar qualquer ato nosso temos duas razões para fazer, se posso fazer sem que eu não agredirei o outro enquanto meu semelhante (ética) e se esse semelhante, da mesma especie que a minha e pensa e sente como eu, pode se defender, por exemplo (moral). Agredir alguém é antes de tudo, um ato de animalidade por razões que pode ser medo de o outro nos agredir (defesa) e um ato de simples fúria de um ato que não tenha gostado. Na visão de Katniss, os jogos eram um ato inútil dentro disso tudo que era a submissão, como se alguém obrigasse alguém a agredir outro por um simples prato de comida. Isso se olharmos dentro da historia humana, existiram muitos atos desse porte como a arena de gladiadores romanos, a arena de cristãos pelos romanos e a santa inquisição da igreja romana – que usava a fé como suporte – só para falar dos atos ocidentais. Talvez a ideia do livro seja um reflexo da arena de gladiadores e isso é evidente – como houve outros filmes sobre isso e até livro – com a discussão entre a ética de seres humanos se matarem para ganharem prêmios (que poderíamos até chegar próximo da banalidade do mal de Hannah Arent). Só que o Hunger Games não é só mera “briga” de seres humanos, é uma punição para lembrar os outros distritos que não podem se levantar contra a capital. Katniss não é só o “tordo” (pássaro que na historia foi construído geneticamente para serem pássaros espiões), mas a escolhida a liderar e ser um simbolo a resistência de uma exploração que à 70 anos, ou seja, ela é a escolhida porque ganhou os jogos sem esperança nenhuma. Isso era antiético e é humanamente, errado enquanto deixar seres humanos seres explorados e assim, viverem em extrema miséria.
Quando ela começa a despertar para lutar – assim o presidente vai atacar o seu sentimento, ou seja, vai torturar Peeta como ato deliberado de desespero – ela começa a se portar como o predador que é, caçar as naves, começa a atacar e depois a se esconder. Escondeu até o máximo sua fraqueza, mas todos seus amigos foram agredidos (alguns mortos), seu distrito destruído, seu “amor” torturado e louco, então, não tinha muito o que fazer senão se levantar contra a capital. A ética de Katniss é a ética da vitima que teve que lutar sempre por algo que perdeu (a perda do pai que lhe dava segurança), o mundo que era aquilo até ela ser o que sempre foi e todos que conhecia e o lugar que morava, fora destruído como se fossem formigas num formigueiros. Mas cade o humanismo? Você vê no livro e logo após no filme, que uma bandeira vermelha com um simbolo amarelo (simbolo claro de governo fascista seja de esquerda ou de direita), mas que fica claro que o “presidente” é um simbolo apenas e não um “homem que governa”. O discurso do poder é um discurso que denota a submissão restrita dos outros distritos para lembrar que a capital venceu e ela ficará no poder (mais ou menos o que acontecia nos estados-cidades gregas). Sempre tem aquele que lidera – passando um simbolismo que o ser humano sempre alcançara o cume se houver um escolhido, um tutor, um messias que o salvará – aquele que vira o herói, aquele que não salvara só ele, mas sempre uma comunidade inteira. Acontece que o escolhido sempre renega seu destino diante dos outros.
O herói tem que perder (seja o pai, seja a mãe, seja um amigo, um amor, até mesmo, um bicho de estimação), mas ele perde para perder aquilo que te prende dentro de uma situação de comodidade. Por que queremos tanto um “messias” e ainda pior, quem disse que aceitamos esse messias? Além de depender de outros para fazer qualquer coisa, ainda esse tal “messias”, tem que ser como querem. Katniss não quer ser herói para salvar todas as pessoas – embora há uma grande cartase dentro do filme que apela para esse lado – ela tem que salvar todo mundo para salvar ela, sua família, Peeta e Gale. Lógico que os mais românticos vão dizer que estou colocando besteiras, mas não, não estou e está la no livro e nos filmes para quem não coloca para o lado sentimental, não é difícil de ser analisada. Quem não quer salvar a sua pele e dos seus? Não venham com o papo que eu não, porque não cola. Então, Katniss não quer ser a heroína, ela é uma utilitarista sentimental, uma justiceira que cansa olhar quem amou e ama sofrer, ela é um ser humano.


Amauri Nolasco Sanches Junior, 39, publicitário, TI e filósofo.



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